
Os leitores mais fiéis já deviam estranhar não ter escrutinado sobre a novela da escolha do treinador encarnado. Pois bem, depois de no passado sábado o universo benfiquista ter ficado a conhecer Quique Flores, as próximas linhas são dedicadas ao novo treinador do Sport Lisboa e Benfica.
Vamos directos à questão central: fiquei satisfeito com a contratação do treinador espanhol? De certa forma, posso afirmar que concordo com a opção tomada. Acredito que não me ofereça garantias de perspectivar uma época tranquila, mas creio que tem condições para que a ilusão de vitórias ganhe consistência. Comparativamente a outros nomes, primeiras escolhas ou não, gostaria de expressar a seguinte opinião: apesar de considerar que ficaria mais entusiasmado com Laudrup, durmo mais tranquilo com a ambição de Quique, em oposição com o distanciamento manifestado por Eriksson. Os motivos não têm a ver com aspectos ligados à competência. Digamos que é uma razão ligada a convicções pessoais. Chamem-lhe intuição.
Sem querer distanciar-me do propósito do artigo, que fique bem ciente que o treinador é, variadíssimas vezes, um homem solitário. Também sem uma estrutura profissional que suporte o seu trabalho, será difícil pensar em vitórias. A este respeito, sugiro a leitura da crónica
organograma funcional da Benfica Futebol SAD. Não pretendo perder mais tempo com esse tema, mas não poderia deixar de contextualizar a acção individual do treinador com a dinâmica colectiva do departamento de futebol. Posto isto, sem questionar (para já) a constituição da restante equipa técnica, centremos a nossa atenção no título do tópico: Quique Sánchez Flores.
Apontamento inicial: não conheço, em detalhe, o conceito de futebol preconizado pelo treinador espanhol. Uma coisa são os dados relativos à carreira, incluindo o percurso profissional e os resultados alcançados. Sobre esse aspecto, a imprensa desportiva já traçou o devido perfil. Torna-se, portanto, escusado repetir o que já foi escrito. No entanto, é sobre o mundo das ideias, do modelo de jogo e da concepção táctica que gostaria de partilhar pensamentos. A esse respeito, chamo à consideração Luís Freitas Lobo. Saltemos de parágrafo.
No entender do conhecido analista português, a contratação de um treinador deve respeitar critérios de competência, de forma a que a explanação de qualidades técnicas vá de encontro à ideia futebolística do clube. Esquecendo a parte financeira, sempre subjacente à escolha da equipa técnica, a minha dúvida reside no seguinte: como medir essa competência individual? Através do mundo dos conceitos e das ideias? Através do futebol praticado no relvado? Através dos resultados? Não deixando de concordar com Luís Freitas Lobo, os atributos qualitativos não podem ser dissociados da prática resultadista. Na minha perspectiva, o primeiro aspecto representa os meios, enquantos os resultados são o espelho dos fins propostos e marca quantitativa na avaliação da competência.
Sobre Quique Flores, para além da sua personalidade e capacidade de liderança, o que importa conhecer? Diria que há atributos mentais e de treino a merecer uma abordagem atenta. Salienta-se:
- Adaptabilidade a uma nova realidade;
- Avaliação da capacidade actual e potencial do jogador;
- Conhecimentos tácticos;
- Determinação e motivação;
- Nível de disciplina;
- Gestão de Recursos Humanos; e
- Trabalho com jovens.
O passado do treinador espanhol dá-nos esperança sobre a forma como idealiza o modelo de jogo, gere o plantel e constrói um onze competitivo para as batalhas no rectângulo verde. Por estarmos a viver um tempo de mudança, com prevísiveis entradas/saídas, os benfiquistas esperam que Quique Flores tenha a sensibilidade técnica suficiente para escolher as peças certas para a máquina do futebol. A experiência anterior, assente na "descoberta" de Gavilán e Raúl Albiol, pode significar um bom ponto de partida.
Quanto à óptica eminentemente táctica, as preferências do novo treinador encarnado são do domínio público: esquemas baseados no 4x4x1x1 (no Getafe) e 4x2x3x1 ou 4x4x2 clássico (no Valência), aliados a uma concepção que privilegia o rigor defensivo, o futebol apoiado e a rapidez nas transições ofensivas. De um modo geral, o retrato está feito.
Fundamental será observar os primeiros meses de trabalho, de maneira a estendermos o conhecimento sobre o modelo de jogo que caracterizará o Benfica do futuro. Refiro-me, nomeadamente, à noção primordial acerca da metodologia de treino e a estratégia respeitante ao tipo de pressão (em largura, em profundidade, zona pressionante baixa, média, alta) e tipo de marcação (homem-a-homem, à zona, mista).
Para terminar, uma curiosidade. Li algures que Quique Flores é adepto de um jogo de simulação estratégica, intitulado
PC Fútbol. Diga-se que, nos meus tempos de Faculdade, era um fanático por este belíssimo título da Dinamic Multimedia. Foram imensas horas a vestir a pele de treinador. Anuncio que tenho em meu poder uma versão mais recente, respeitante a 2007. Assim, em jeito de brincadeira, deixo o desafio ao novo "manager" encarnado: Quique, se pretenderes iniciar uma nova competição, prepara-te para sofrer, mas se preferires testar umas variantes tácticas, podes contar com a minha colaboração.