Há cerca de duas semanas, sensivelmente, o Nuno Francisco, director da Revista "Futebolista" desafiou-me para uma curta entrevista, a publicar na edição de Fevereiro. Depois do convite ter chegado à minha caixa de correio electrónico, prontamente devolvi as respostas às questões colocadas pelo remetente. O resultado final agradou-me. Não tenham receio: em primeiro lugar, são só cinco perguntinhas que não aborrecem e acompanham um café de final de tarde; em segundo lugar, prometo que fica rejeitado o risco de ficarmos encantados com a independência da imprensa diária desportiva ou de sermos atraídos por actividades tão nobres como a arbitragem e o dirigismo. Passes de mágica, só no relvado. Assim, À "Futebolista", o meu obrigado pelo destaque. Para os curiosos, a entrevista pode ser lida aqui.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Futebol em Moçambique
Constatar o facto de dois dos maiores protagonistas encarnados terem raízes africanas, abre espaço à formulação de várias questões. Qual o estado actual do futebol moçambicano? Será possível, nos dias de hoje, ver a história repetir-se? Por outras palavras, qual a potencialidade de miúdos, que correm e jogam de pé descalço, virem a tornar-se os "Coluna’s" e "Eusébio’s" do séc. XXI? É o que tentarei responder nas próximas linhas...
Nomes conhecidos
Armando SáClube
Sepahan (Irão)
Nascimento
16.09.1975 (33 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,76m
Peso: 70kg
Vindo do Sporting de Braga, ao mesmo tempo que Tiago, chegou ao Benfica na época 2001/02. Permaneceu três temporadas na Luz, mas em 2004/05 saíu para o campeonato vizinho - primeiro em direcção ao Villarreal, mais tarde com passagem pelo Espanhol de Barcelona. Ainda experimentou a liga inglesa, mais concretamente o Leeds United, embora o avançar da idade (encontra-se na fase descendente da carreira) o tenha empurrado para a aventura iraniana.
PaítoClube
Sion (Suiça)
Nascimento
05.07.1982 (26 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,70m
Peso: 70kg
Lateral-esquerdo, de vocação atacante, fez parte do plantel leonino durante perto de cinco épocas. Contudo, o menor acerto revelado nas tarefas defensivas foi rejeitado pela exigência de Alvalade. Rumou, depois, ao Vitória de Guimarães e Sporting de Braga, representando o Sion há duas épocas consecutivas. Tem Carlitos, também ele ex-jogador de um grande de Lisboa, como companheiro de equipa.
Figura internacional
Simão JuniorClube
Panathinaikos (Grécia)
Nascimento
23.07.1988 (20 anos)
Naturalidade
Moçambique -
Altura: 1,78m
Peso: 78kg
Após ter dado nas vistas no Ferroviário, Simão Junior é, actualmente, reconhecido como um dos maiores valores moçambicanos. Em 2007/08, o conhecido clube grego não hesitou na hora de apostar neste jovem de enormes qualidades. Fala-se que o FC Porto está atento ao desenvolvimento do jogador, o qual define-se como médio defensivo, forte a jogar sem bola, a roubá-la e a fazer a equipa jogar.
Por sua vez, na competição interna o Ferroviário de Maputo sagrou-se campeão nacional de futebol de 2008, ao vencer na última jornada o Costa do Sol por 2-0. Os "locomotivas" terminaram o "Moçambola" com 56 pontos, mais cinco que o Atlético Muçulmano, concorrente directo.
Festival de Cannes premeia filme moçambicano
Para variar, o programa moderado por Hugo Gilberto terminou com uma surpresa: a apresentação da curta-metragem "A Bola", do realizador Orlando Mesquita. O filme moçambicano, produzido pela Ébano Multimédia, recebeu o prémio especial do júri no festival Cannes Júnior e, também, o Prémio Instituto Camões para a melhor curta-metragem de expressão Lusófona. O vídeo encontra-se disponível aqui. Acreditem que são 4:41 minutos bem empregues...
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Os Senhores da Europa
Dou início a esta rubrica com uma interrogação: quem foi a última equipa a vencer, de forma consecutiva, a Champions League? Bem, a imagem retira o efeito supresa, acabando por dar resposta à questão. Porém, esta tinha de ser formulada. O texto que se apresenta é inteiramente dedicado ao fantástico AC Milan, os Senhores da Europa.Últimos vinte anos de Champions League
Comecemos com um pouco de história. De facto, a equpa italiana foi a última a conquistar, duas vezes seguidas, o troféu mais apetecido por treinadores, jogadores e adeptos. Vinte anos atrás, corria a época 1988/89, a dupla Gullit e Van Basten cometeu a proeza de despachar o Steaua de Bucareste, contribuindo cada um com a marcação de dois golos. Na temporada imediatamente a seguir, numa final de má memória para o Benfica, oportunidade para Rijkaard mostrar-se decisivo com a obtenção do tento solitário. O AC Milan dominava a Europa e, de então para cá, o "bis" europeu nunca mais voltou a acontecer.
Próximo passo: sugiro que observemos a história dos últimos vinte anos de Champions League:
Época – Vencedor / Vencido – Resultado (após g.p.)
1988/89 – AC Milan / Steaua Bucareste – 4-0
1989/90 – AC Milan / SL Benfica 1-0
1990/91 – Est. Vermelha / O. Marselha 0-0 (5-3)
1991/92 – Barcelona / Sampdória 1-0
1992/93 – Ol. Marselha / AC Milan 1-0
1993/94 – AC Milan / Barcelona 4-0
1994/95 – Ajax / AC Milan 1-0
1995/96 – Juventus / Ajax 1-1 (4-2)
1996/97 – Bor. Dortmund / Juventus (3-1)
1997/98 – Real Madrid / Juventus 1-0
1998/99 – Man Utd / Bayern Munique 2-1
1999/00 – Real Madrid / Valência 3-0
2000/01 – Bayern Munique / Valência 0-0 (5-4)
2001/02 – Real Madrid / Bayer Leverkusen 2-1
2002/03 – AC Milan / Juventus 0-0 (3-2)
2003/04 – FC Porto / Mónaco 3-0
2004/05 – Liverpool / AC Milan 3-3 (3-2)
2005/06 – Barcelona / Arsenal 2-1
2006/07 – AC Milan / Liverpool 2-1
2007/08 – Man Utd / Chelsea 1-1 (6-5)
Champions League: pódio de vencedores
Real Madrid = 9
1955/56; 1956/57; 1957/58; 1958/59; 1959/60; 1965/66; 1998/98; 1999/00 e 2001/02
AC Milan = 7
1962/63; 1968/69; 1988/89; 1989/90; 1993/94; 2002/03 e 2006/07
Liverpool = 5
1976/77; 1977/78; 1980/81; 1983/84 e 2004/05
Cronologicamente, remetendo-me ao essencial, nota-se uma clara separação geracional entre os clubes incluídos no pódio. A ideia central poderia ser descrita do seguinte modo:
1. As conquistas europeias do Real Madrid, entre 1955 e 1960, marcaram o conceito futebolístico do meu Avô. Personagens como Gento, Puskas e Di Stéfano fazem parte do seu imaginário, incluídos na chamada hegemonia branca.
2 . Em situação idêntica, nas décadas de 70 e 80, foi a vez do meu Pai ser fortemente influenciado pelo domínio dos Red’s de Anfield.
3. Anos mais tarde, chegou a minha vez de ficar rendido ao poderio assombrosso da santíssima trindade, composta pelos conhecidos holandeses do AC Milan daquele tempo.
Os Senhores da Europa
A partida frente ao Steaua de Bucareste, disputada a 14 de Maio de 1989, marca o início do namoro italiano. Quando me lembro dessa final, só posso concluir que o vencedor era mais do que uma boa equipa. Era uma máquina de jogar futebol. A começar pela zona pressionante, implementada por Arrigo Sacchi e depois aprimorada por Fabio Capello. Quando me deparo com qualquer tentativa de comparação táctica, e estratégica, só consigo pensar tratar-se de uma anedota. De mau gosto.
Evidentemente, uma equipa deste nível teria que ser preenchida com valores individuais de topo. E que valores, caros leitores. Atente-se no onze titular dessa final: Galli, Tassoti, Costacurta, Baresi, Maldini, Rijkaard, Donadoni, Ancelotti, Colombo, Gullit e Van Basten. Curiosamente, o AC Milan recente ainda apresenta algumas semelhanças com aquela equipa do passado: (i) uma defesa experiente e sólida, repleta de jogadores italianos, autênticas bandeiras do clube (antes, Tassoti, Baresi e Costacurta; depois, Maldini e Nesta); (ii) um meio-campo assente num misto de intensa capacidade de pressão e imensa qualidade técnica (antes, Rijkaard e Ancelotti; depois, Seedorf e Pirlo); e, (iii) um ataque repleto de jogadores fantásticos, dos melhores do mundo na sua posição (antes, Gullit e Van Basten; depois Kaká, por exemplo).
Hora de terminar. Reconheço que dou particular atenção à história. Os museus explicam, em grande parte, muito daquilo que os clubes representam no presente. Contudo, tendo nascido em 1975, a minha admiração e respeito encontra-se direccionada para Milão. O contrário é que seria de espantar. Nos últimos vinte anos, 8 finais europeias e 5 troféus conquistados chegam e sobram para definir a minha concepção de futebol. Ponto final.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
A mística perdida do Sport Lisboa e Benfica
Caros leitores: podem considerar que o 'timing' deste artigo não é o mais adequado. Principalmente depois de ultrapassado o descalabro da Trofa, mercê das vitórias frente a Sp. Braga, para a Liga Sagres, Olhanense, para a Carslberg Cup e após a visita de 'Deus' Maradona ao palco da Luz. Provavelmente, têm razão. Acontece que já há uns dias vinha pensando no tema que dá nome ao título. Como é hábito, as minhas apreciações acerca do universo encarnado não se encontram condicionadas por resultados positivos ou negativos, nem pretende ser um espelho diário da imprensa desportiva.mística s.f.,
estudo das coisas divinas ou espirituais;
vida contemplativa;
por ext. fanatismo doutrinário.
A natureza da palavra
Ao contrário do termo que aparece no dicionário, quando o assunto é futebol a mística assume um carácter intangível, praticamente inexplicável. Então quando esta diz respeito ao Benfica, o tema assume enormes proporções, com debates sem fim à vista. Muitos, afirmam que as vitórias representam um sinónimo perfeito para a mística. Alguns, preferem falar de amor à camisola. Vários sentem-na, mas é díficil encontrar o significado certo para a palavra. Porque esta é geracional e substancialmente diferente entre um grupo alargado de indivíduos. Dirigentes, treinadores, jogadores, inclusive adeptos, podem ser portadores da mística e, ao contrário do bilhete de identidade, ela é pessoal e transmissível.
Juízo pessoal
Para melhor conhecer e compreender como se construíu a mística do Benfica, aconselharia a leitura do livro 'Pela Mística Dentro'. Porém, num acto irreflectido e arriscado, gostaria de transmitir a minha visão sobre o assunto. É mais difícil do que possa parecer, mas não custa tentar.
Em primeiro lugar, é verdade que a mística ganha asas no momento das maiores celebrações. Nada a opor. Contudo, na época 1965/66, o título nacional foi conquistado pelo Sporting. Será que o plantel do Benfica, nessa temporada, não continha em si a tão famosa mística? Sem hesitar, não me parece. Sendo certo que as vitórias alimentam a lenda, falta algo mais que complete a fórmula mágica.
No meu entender (enchendo o peito de ar), mística é compromisso, identidade e lealdade. Compromisso com uma causa, entendida enquanto dedicação ao emblema, privilegiando um espírito de sacríficio que leve às vitórias. Identidade com as raízes do clube, conhecendo a sua história e respeitando os seus protagonistas. Lealdade com um símbolo, defendendo com prazer e orgulho a camisola que dá cor a uma nação.
Actualmente, não será descabido afirmar que a mística encontra-se depositada em Rui Costa. O director desportivo preenche os requisitos enunciados, sendo das poucas vozes da estrutura encarnada que todos fazem questão de escutar. Indubitavelmente, o seu percurso fala por si: inicialmente como atleta dos escalões jovens, apanha-bolas, jogador profissional da primeira equipa, a saída para o estrangeiro, entre lágrimas, o regresso sentimental do filho pródigo e, mais tarde, o pendurar das botas e a missão de fato e gravata. A mística é isto.
1. Exemplo de Estugarda (1988)
E quanto à realidade presente? Que dizer dos jogadores que constituem o plantel às ordens de Quique Flores? Já lá iremos. Por agora, façamos uma viagem, no passado. Em 25 de Maio de 1988, o Benfica atingiu a final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, marcada pelo dramatismo do penalty falhado por Veloso, na altura capitão encarnado. A escolha deste facto tem uma explicação lógica: como não vivi a glória da década de 60 e era muito novo aquando da final da Taça Uefa, frente ao Anderlecht, a caminhada europeia desse ano marcou a minha forma de olhar para o Benfica. Tinha 13 anos e, apesar da tristeza associada à derrota, pude constantar que compromisso, identidade e lealdade não eram palavras vãs. No fundo, a imagem que guardo desses tempos é só uma: mística.
A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, Veloso, Dito, Mozer e Álvaro; Chiquinho, Elzo, Shéu e Pacheco; Mats Magnusson e Rui Águas.
Para não variar, apresento mais um exercício que consiste em identificar, para cada jogador presente na final de 1988, quantas épocas consecutivas levavam de águia ao peito. Exemplo: à data, o guarda-redes Silvino cumpria o segundo ano consecutivo ao serviço do Benfica. No fim, o valor total resume a soma das épocas de todos os jogadores.
Silvino (2.ª época)
Veloso (8.ª)
Dito (2.ª)
Mozer (1.ª)
Álvaro (7.ª)
Chiquinho (2.ª)
Elzo (1.ª)
Shéu (16.ª)
Pacheco (1.ª)
Mats Magnusson (1.ª)
Rui Águas (3.ª)
Total = 44 épocas
Podem os jogadores estrangeiros compreender a mística?
A resposta à questão é afirmativa. No entanto, ressalve-se que essa assimilação depende de vários factores: por um lado, a própria personalidade do jogador influencia a absorção de ensinamentos ligados à identidade do clube; por outro lado, a estrutura do departamento de futebol tem enorme responsabilidade em assegurar a transmissão de informação histórica e os colegas de equipa com mais anos de casa devem assumir-se como veículos condutores da velha mística. No caso concreto da equipa titular na final de Estugarda, o brasileiro Mozer e o sueco Magnusson apresentam episódios curiosos. Proponho a leitura dos links disponíveis, comprovando a certeza da resposta dada.
2. Exemplo de Viena (1990)
Dois anos mais tarde, a 23 de Maio de 1990, o Benfica volta a viver a emoção de disputar uma final europeia, desta feita contra o fantástico AC Milan de Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco Van Basten. Lamentavelmente, o resultado (derrota por 1-0) voltou a ser desfavorável à equipa portuguesa. Todavia, a campanha desse ano ficou positivamente marcada pela meia-final diante do Marselha. Ainda hoje, passados quase vinte anos passados, todos se recordam da mão de Vata, num Estádio da Luz a fervilhar de emoção. Um vulcão de mística.
A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, José Carlos, Aldair, Ricardo Gomes e Samuel; Hernâni, Vítor Paneira, Jonas Thern, Valdo e Pacheco; Mats Magnusson.
Silvino (4.ª época)
José Carlos (1.ª)
Aldair (1.ª)
Ricardo Gomes (2.ª)
Samuel (7.ª)
Hernâni (2.ª)
Vítor Paneira (2.ª)
Jonas Thern (1.ª)
Valdo (3.ª)
Pacheco (3.ª)
Mats Magnusson (3.ª)
Total = 29 épocas
A mística enquanto factor X
O que realmente importa e pretendo provar é que a mística daquele tempo não encontra paralelo na conjuntura actual, muito por culpa das constantes entradas e saídas a que os plantéis são sujeitos. Tornou-se prática afirmar: não basta ter jogadores de qualidade para ter uma boa equipa. Eu iria mais longe: uma boa equipa pode basear-se num conjunto de jogadores acima da média, mas sem esquecer todos aqueles que amam a camisola que envergam. E, na minha opinião, quanto mais anos um jogador estiver no clube, mais facilmente compreenderá o verdadeiro significado do que a mística representa. Na maioria das vezes, acaba por representar a diferença ténue entre o êxito e o fracasso. O tal factor X. Embora, nos dias de hoje, seja comum falar-se em atitude.
Cenário presente
De regresso ao momento actual, procurei seleccionar um onze tipo ideal e, tal como feito anteriormente, desenvolver o mesmo tipo de exercício com os parâmetros previamente definidos.
Moreira (9.ª época)
Maxi Pereira (2.ª)
Luisão (6.ª)
Miguel Vítor (1.ª)
David Luiz (3.ª)
Ruben Amorim (1.ª)
Katsouranis (3.ª)
Hassan Yebda (1.ª)
José Antonio Reyes (1.ª)
Pablo Aimar (1.ª)
David Suazo (1.ª)
Total = 29 épocas
Comparativamente com a saudosa equipa da final de Viena, resulta interessante verificar a igualdade no número total de épocas. A diferença está no seguinte: no onze titular da década anterior destaca-se uma maior homogeneidade entre os seus elementos e preponderância de jogadores portugueses; no plantel actual seis jogadores cumprem a sua primeira época e só Moreira e Luisão perfazem, em conjunto, quinze temporadas ao serviço do clube.
Termino com um desafio: e para si, caro leitor, o que é a mística?
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
[Taça da Liga] V. Guimarães 0-2 SL Benfica
Para finalizar, gostaria de dedicar este parágrafo a Miguel Vítor. Curiosamente, o jovem formado nas escolas do Benfica foi o único jogador português a constar da lista inicial do onze titular. Até Carlos Carvalhal, que comentava as incidências da partida, referiu-se à sua actuação (personalizada) em tom elogioso. Não podia estar mais de acordo. Apesar de um ou outro erro, sem consequências de maior, que bela exibição fez o 'míudo': muito concentrado e determinado, raramente perdeu lances divididos e revelou enorme disponibilidade para "varrer" a sua área de jurisdição. Congratulo-me por verificar que um jogador formado na Luz vai conquistando o seu espaço, ganhando a confiança de colegas, o respeito de adversários e a admiração do mundo do futebol. Embora haja quem pense o contrário, sou da opinião que a construção da mística passa muito pela aposta e crescimento de jogadores umbilicamente ligados ao clube que representam. Para os mais puristas, em questão de números, vale a pena observar a sua estatística pessoal, referente à época em curso.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
[Liga Sagres 13.ª J] Trofense 2-0 SL Benfica
Agora, oportunidade para um exercício de memória interessante: comparar a actual equipa com aquela que conquistou o título nacional em 2004/05. Para além das naturais diferenças na estrutura de futebol, equipa técnica incluída, importa distinguir certas particularidades em termos de plantel:
- Época 2004/05
Dezassete jogadores portugueses (50% do plantel)
Nove nacionalidades distintas
Numa equipa liderada pela "raposa" Trapattoni, espremida ao máximo, o onze normalmente titular contemplava oito atletas portugueses: Quim, Miguel, Ricardo Rocha, Petit, Manuel Fernandes, Nuno Assis, Simão e Nuno Gomes.
- Época 2008/09
Oito jogadores portugueses (29,6% do plantel)
Treze nacionalidades diferentes
Numa equipa comandada por Quique Flores, o onze que costuma entrar em campo raramente contempla mais do que quatro portugueses e, para a maioria, trata-se do primeiro ano a jogar na Luz.
Se pretendesse ser mais pormenorizado, poderia acrescentar mais dados à discussão. Todavia, bastam algumas linhas para provar o que pretendo.
Na temporada 2004/05 a equipa ostentava a conquista da Taça de Portugal, na época imediatamente anterior, com um núcleo duro de jogadores que vinham a ser moldados há dois ou três anos. Tratava-se de um plantel em fase de maturação competitiva que, sem cativar em termos exibicionais, mostrava-se no ponto crítico de estabilidade para finalmente vencer a principal competição nacional. Apesar das críticas, era uma equipa segura e talhada para vencer. Na altura, Simão assumia um protagonismo e brilhantismo imcomparável com os dias de hoje.
Na presente temporada, numa equipa praticamente renovada de alto a baixo, poucos podem orgulhar-se de terem sido campeões de águia ao peito. Não existe dinâmica de vitória porque, pura e simplesmente, estes jogadores não têm o hábito de vencer. Trata-se, assim, de um plantel em fase quase embrionária, a necessitar de crescimento rápido, com bons valores individuais, mas que denota imensas dificuldades colectivas em perceber a pressão dos adeptos e lidar com o "ruído" que sempre aparece do exterior. Essencialmente, para muitos deles, falta personalidade que encaixe na grandiosidade do clube, notando-se claramente a carência de mística.
Bem, chegados a este ponto, importa colocar uma questão. Deverá Rui Costa, em conjunto com a Direcção da SAD, optar pela destituição do treinador espanhol, proceder a novas entradas e saídas no mercado de Inverno e, inclusive, efectuar a milionésima revolução do futebol encarnado? Sem hesitações, respondo: Não! De todo! Mesmo que, logo à noite, António-Pedro Vasconcelos diga o contrário.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
A todos os leitores II:
Repetindo os votos da semana passada, volto a desejar um 2009 com mais razões para sorrir face ao ano que está prestes a terminar. Num misto de paciência e sabedoria, espero que consigam ultrapassar os momentos menos bons, saboreando cada pedaço de alegria que a vida nos proporciona. Partam, definitivamente, para aquele projecto que constantemente têm adiado e persigam os vossos sonhos. Façam de 2009 um ano marcante. Pela positiva.Como já não faltam muitas horas para dobrar o novo ano, impõe-se um balanço destes últimos 12 meses. A melhor forma encontrada para esse exercício traduziu-se numa criteriosa selecção dos artigos que fui escrevendo, desde que o blogue foi criado. Uma espécie de top 10 Catenaccio.
Não poderia finalizar sem deixar de agradecer todos os incentivos recebidos, contando com as visitas diárias e comentários feitos neste espaço, esperando que 2009 traga mais motivos para nos encontramos neste 'cantinho' virtual. Do mais antigo para o mais recente, recordemos, agora, o melhor de 2008:
1. A demissão de José António Camacho
2. Manifestação "Orgulho Benfiquista"
3. Profile de Quique Sánchez Flores
4. A novela Cristiano Ronaldo
5. Portugal no Euro'2008
6. A consagração espanhola
7. O pensamento futebolístico de Quique Flores: táctica e modelo de jogo
8. Mercado de transferências europeu 2008/09
9. Software aos serviço do futebol
10. Os novos "bebés" de Matosinhos
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
A todos os leitores I:
Feliz Natal!
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
[Uefa Cup Grupo B] SL Benfica 0-1 Metalist
Mais difícil do que encontrar uma alma gémea, é encontrar um benfiquista com uma linha de pensamento idêntica. Não é de espantar. Sigam o raciocínio. Há aqueles que presenciaram a época gloriosa, quando o Benfica venceu duas taças dos clubes campeões europeus e há os outros que nunca viram o clube ganhar um troféu europeu. Há os benfiquistas que não perdem um jogo no Estádio da Luz, os que não perdem um jogo pela televisão e os restantes que só sabem o resultado da partida no dia seguinte de manhã. Existem os sócios e os meros adeptos simpatizantes. Não fica por aqui. Há quem reconheça o trabalho desenvolvido por Luís Filipe Vieira, enquanto outras vozes mantêm o tom crítico. Há quem aponte enorme competência a Quique Flores e quem seja mais modesto nos elogios. Há quem aprecie o jogador “x” e quem admire mais o atleta “y”. Há quem acredite no 4x4x2 clássico e quem julgue ser um disparate continuar a apostar nesse desenho táctico. Estamos quase a terminar. Há, ainda, aqueles que projectam a memória do passado para elevar os níveis de exigência e, em sentido inverso, outros são mais moderados e pacientes. Há quem diga que o Benfica deve apostar mais na formação e quem afirme que tal não é estritamente necessário para alcançar o êxito. Há quem fique chocado com o facto do actual plantel contar com poucos portugueses e quem aceite tal realidade como uma inevitabilidade da globalização. Quando as vitórias são constantes, é muito saboroso observar a 'onda vermelha' agigantar-se. Agora, quando os resultados apontam para um cenário de desilusão...a confusão instala-se.
Qual a moral da estória? Basicamente, nenhuma. Estas palavras servem o único pretexto de nos fazer reflectir. De uma coisa tenho a certeza: no meu entender, a chave do sucesso passa, necessariamente, por perceber a identidade do clube, estudar a sua história e captar a verdadeira mística que o envolve. Será o melhor caminho para atingir o que realmente nos une: a descoberta de um Benfica glorioso.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
4x4x2 clássico em vias de extinção?
Luís Freitas Lobo escreve hoje, no jornal 'A Bola' sobre o posicionamento de Ruben Amorim na lateral direita do meio-campo encarnado. Aqui fica um breve excerto que resume o essencial:"Nesse caso então este tipo de sistemas (o 4x4x2 clássico) só funciona no processo construtivo com pelo menos um médio-centro de grande categoria, no pulmão, na técnica e na táctica. Ruben Amorim não é, naturalmente, um caso desses na sua máxima expressão, mas, no actual Benfica, não vejo outro jogador capaz de fazer essa missão."
O enquadramento do duplo pivot defensivo leva-nos à seguinte questão: encontra-se o 4x4x2 clássico em vias de extinção? Um bom exemplo será averiguar sobre os sistemas tácticos utilizados pelos dezasseis participantes nos oitavos-de-final da Champions League. Para bom termo de comparação, nada como analisar os predicados dos principais 'tubarões' europeus. Seguem, por ordem alfabética (esquema alternativo entre parêntesis):
Arsenal – 4x4x2 clássico (4x5x1)
Atlético de Madrid – 4x1x4x1
Barcelona – 4x3x3
Bayern de Munique – 4x4x2 clássico
Chelsea – 4x3x3 (4x1x4x1)
FC Porto – 4x3x3
Inter de Milão – 4x3x3
Juventus – 4x4x2 clássico (4x4x1x1)
Liverpool – 4x2x3x1 (4x5x1)
Lyon – 4x3x3
Manchester United – 4x4x2 clássico (4x4x1x1)
Panathinaikos – 4x3x2x1
Real de Madrid – 4x2x3x1
Roma – 4x2x3x1
Sporting – 4x4x2 losango
Villarreal – 4x4x2 clássico (4x4x1x1)
Como se pode comprovar, o sistema implementado por Quique Flores, no Benfica, tem a companhia de alguns emblemas de elevada dimensão. Ainda assim, dentro dos exemplos descritos, o 4x4x2 clássico, apesar de ser o desenho preferencial, sofre a concorrência de um plano B, consoante as circunstâncias do adversário. O caso mais representativo, daquilo que estamos a tratar, localiza-se em Munique. Com efeito, o 'gigante' alemão podia representar um óptimo modelo, não para Quique Flores imitar, mas para retirar ensinamentos. Vejamos o onze titular que venceu, por 3-2, o Olympique de Lyon no seu próprio reduto:
GR Michael Rensing
DD Massimo Oddo
DC Van Buyten
DC Martin Demichelis
DE Philipp Lahm
MD Schweinsteiger
MC Mark Van Bommel ©
MC Tim Borowski (Zé Roberto)
ME Franck Ribéry
AV Luca Toni
AV Miroslav Klose
A dupla constituída por Van Bommel e Borowski, ou Zé Roberto, preenche os requisitos contemplados por Luís Freitas Lobo: pulmão, técnica (mais o brasileiro) e táctica. Pelo facto do sistema basear-se em três linhas horizontais, exige-se que os homens do centro do terreno acompanhem os movimentos de transição e funcionem como elo de ligação entre os diferentes sectores. Esse vaivém constante é suportado pela enorme capacidade atlética dos seus intépretes: Van Bommel (187cm e 84kg), Borowski (194cm e 84kg) e, em menor expressão, Zé Roberto (172 cm e 71kg).
No Benfica, várias sociedades foram testadas. Entre as mais utilizadas, evidenciam-se: Yebda - Carlos Martins, Katsouranis – Yebda e Bynia – Katsouranis. Enquanto o português brilha pela técnica, o franco-argelino dá nas vistas pelo vigor nas tarefas de pressão e recuperação. Por sua vez, Bynia é aquele que, porventura, apresenta menos recursos futebolísticos e, sem grande contestação, Katsouranis é o mais completo nos vários domínios de jogo. Sobre este tema, chamo a atenção para o brilhante texto publicado no 'Entre Dez'.
Chegados a este ponto, deveria Quique Flores seguir a recomendação de Luís Freitas Lobo e experimentar uma dupla constituída por Katsouranis e Ruben Amorim? Penso que sim, nomeadamente nas partidas em que o Benfica 'manda' no jogo e o adversário privilegia o processo defensivo. Seria interessante observar o futebol da equipa, em termos de dinâmica, posse e circulação de bola, deixando o grego mais posicional, como um típico n.º 6, e o português mais liberto para acções de condução, vestindo a camisola do denominado n.º 8. Contudo, há sempre um mas. Em distintas circunstâncias - condições meteorológicas, qualidade do oponente e desenrolar do marcador - Yebda apresenta argumentos bastante válidos. Quique Flores tem a palavra. De qualquer forma, caso seja possível, não percam a ocasião de seguir uma partida do Bayern de Munique. Depois, descubram as diferenças.
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