segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

[Liga Sagres 17.ª J] FC Porto 1-1 SL Benfica

Pergunta: para quê escrever rebuscados tratados sobre modelos de jogo, quando dragão não rima com táctica? Com emoção, talvez. Com desilusão, sem dúvida. Também há quem diga que dragão rima com organização. Típica expressão à la Rui Moreira. Seis milhões de indivíduos chamar-lhe-iam outra coisa...

Não vou escrever sobre as incidências do clássico. Pura e simplesmente não me apetece rebater dibujos tácticos. Tampouco analisar a performance exibicional dos jogadores encarnados. Pretendo, apenas, enviar uma mensagem à família benfiquista.

Faltam treze jornadas para o término da Liga Sagres. No meu entender, é a altura decisiva para enterrar "machados de guerra" internos. Por outras palavras, até final da competição sugiro que o sentimento de união prevaleça sobre a toada crítica que a imprensa desportiva faz questão de lembrar diariamente.

Não é o momento certo para testar a eloquência de Luís Filipe Vieira. Não é o "timing" ideal para criticar a tonalidade das gravatas de Rui Costa. Não é, concerteza, a altura correcta para desconfiarmos das competências técnicas de Quique Flores. Não há razão para assobiar este ou aquele jogador, suspirando por uma estrela futebolística da qual vimos maravilhas no You Tube.

Diferentes opiniões, ou perspectivas, não devem servir como desculpa para que a nação encarnada se desvie do objectivo principal - a conquista da Liga Sagres, nem devem atraiçoar a dura realidade dos factos: estamos envolvidos numa luta desigual, contra um adversário mais do que identificado, a fazer exigir um espírito colectivo, de acordo com o nosso lema - Et Pluribus Unum!

P.S. Ao contrário dos critérios literários definidos como excelentes, esta entrada registou a palavra não em oito ocasiões. O negativismo expresso no texto espelha o estado de alma do autor, derivado da prática de mais uma machadada na verdade desportiva - como se o futebol português ainda tivesse algo saudável a que se agarrar. Aos leitores, as minhas desculpas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar no Dragão?

Na contagem decrescente para a partida do dragão, impõe-se a seguinte interrogação: será o jogo decisivo para o desfecho da Liga Sagres? Depende. A resposta só é afirmativa no caso da vitória sorrir ao FC Porto. Nesse cenário, os actuais detentores do troféu dilatariam o avanço, sobre o rival, para além de beneficiarem do confronto directo, em caso de igualdade, mercê do empate registado na Luz.

O treino como fotograma do «jogar»

Nestes encontros, tornou-se hábito afirmar que o vencedor será aquele que melhor controlar o factor imprevisibilidade. O tópico sobre o domínio dos detalhes – físico, mental, táctico e técnico – pode ser encarado como a gestão eficaz dos pormenores: a importância de uma bola parada ou um momento de desconcentração na transição defensiva, entre outras circunstâncias ditadas pelo desenrolar da própria partida. Apesar do âmbito natural dos treinadores ser um espaço limitado, quanto mais situações particulares forem treinadas, menor será a influência deste factor.

Chave do clássico

No meu entender, a chave do clássico está em...Quique Flores! Do lado do campeão nacional, a imprevisibilidade, positiva ou negativa, encontra-se, cada vez mais, dominada pela maturidade táctica trabalhada por Jesualdo Ferreira. Ao contrário, no Benfica, o grupo depende, em demasia, da inspiração e talento das individualidades. Cabe ao treinador espanhol reduzir o impacto associado ao que commumente se denomina de sorte e azar, levando a equipa a assimilar índices elevados de confiança, consistência e personalidade.

Lado mental ou táctico?

Deste modo, para a nação benfiquista, as decisões protagonizadas por Quique Flores podem representar a ténue diferença entre o ponto de ebulição ou o arrefecimento dos níveis de euforia. Em primeiro lugar, as escolhas técnicas: quem fará parte do onze titular? Miguel Vítor ou Sidnei? Carlos Martins ou Yebda? Di María ou Reyes? Cardozo ou Suazo? Em segundo lugar, como conciliar uma estratégia de contra-ataque com um discurso ambicioso? A meu ver, reside aqui a questão fundamental: como será Quique capaz de motivar e tranquilizar os seus jogadores, sabendo-se que a mensagem para o exterior, plena de convicção e modernidade, nem sempre se coaduna com o real comportamento no relvado, assente em linhas posicionadas num bloco médio-baixo e excesivamente dependente da aposta na velocidade de Suazo, com passes em profundidade? Conflito entre o lado mental e a vertente táctica.

Um olhar sobre os passos do dragão

Sem pôr de parte uma pitada de seriedade, esta secção tem um registo mais irónico. A ideia é imaginar um conjunto de enunciados transmitidos directamente a Quique Flores. Uma espécie de conversa fictícia, completamente orientada para a 2.ª pessoa do singular. Poderia ser, mais ou menos, uma coisa do género...

Quique, como o Diamantino já te explicou, o FC Porto tem construído a sua "casa" táctica à volta do 4x1x3x2. Os jogadores, e posições respectivas, já conheces. Basta lembrares-te daqueles que não coleccionaram bilhete de comboio: Fucile, Rolando, Bruno Alves e Cisskho, no quarteto defensivo; como tampão às investidas ofensivas do adversário, Fernando; mais à frente, um trio constituído por Lucho González, Raul Meireles e Cristián Rodríguez; por fim, na zona de finalização, a dupla formada por Hulk e Lisandro. Suponho que, até aqui, estás a acompanhar.

a) O FC Porto, com bola

Quique, a parte que se segue é importante. Por esta altura, já reconheces as deficiências da tua equipa, logo deves prever que o adversário procure atacar os nossos pontos fracos. Um deles, tem a ver com a maior liberdade concedida a Maxi Pereira. Eles podem aproveitar esse espaço nas costas, caindo do lado de Luisão que, já de si, não prima pela velocidade de reacção. É natural que Hulk pise esses terrenos e há que tomar cuidados acrescidos. O outro, está relacionado com o excessivo espaço entre os jogadores encarnados, principalmente na zona do meio-campo. Bem sei que o Ruben Amorim interioriza e dá um apoio fundamental, mas é prevísivel que Lucho e Rodríguez tentem forçar o eixo central. Portanto, muita atenção à forma como a equipa pressiona em largura e à interligação dos diversos sectores.

b) O FC Porto, sem bola: versão 4x3x3

Quique, se calhar é melhor ires chamar o Paco que agora vão aparecer uns dibujos. Editando a imagem, até podes pensar nalguns melhoramentos: (i) se quiseres indicar os movimentos de transição, adicionas umas setas; (ii) se pretenderes representar a dinâmica dos jogadores, acrescentas uns raios de acção; e, (iii), caso queiras espelhar a forma como a zona deve ser interpretada, colocas zonas individuais de intervenção. Por fim, exportas o resultado final para powerpoint e vais ver que resulta. Bem, vamos ao que interessa?

Quique, quando o FC Porto não tem a posse de bola, pode optar por vários caminhos de pressão que melhor sirvam a tarefa de recuperação e consequente saída rápida para o ataque. Antes que possas retorquir - se o FC Porto actua, preferencialmente, num 4x1x3x2, porquê esta ilustração em 4x3x3? - adianto que Jesualdo Ferreira pode pensar neste esquema posicional, como forma de melhor distribuir os jogadores no relvado. Esta versão tem a particularidade de potenciar uma pressão média-alta, sendo muito agressiva no eixo central. A intenção será impedir a nossa saída de bola, asfixiando Yebda e Katsouranis. Quando assim acontecer, dá logo a instrução para a transição ofensiva seguir circuitos junto à linha, quer por intermédio de Maxi Pereira, quer através do apoio de David Luiz. Por razões ligadas a características individuais, Rodríguez, à esquerda, e Lisandro, à direita, nem sempre vão ter a disponibilidade física para acompanhar o lateral da sua faixa.

c) O FC Porto, sem bola: versão 4x1x3x2

Quique, chama o Paco outra vez que ainda não terminámos. O próximo dibujo, em termos meramente posicionais, oferece a perspectiva típica do FC Porto actual.

Neste cenário, o adversário procura a intensidade de um primeiro momento de pressão, sendo que Hulk cai no espaço entre Maxi Pereira e Luisão, enquanto Lisandro pisa os calcanhares de Miguel Vítor (Sidnei?) e David Luiz. Porém, ao contrário do que possa parecer, esta hipótese deixa maior margem de manobra para a dupla Yebda e Katsouranis saírem com a bola jogável. Inteligentemente, diga-se de passagem, será de esperar que caiba a Raul Meireles (e não a Rodríguez) a função de fechar o lado esquerdo, precavendo as subidas do nosso lateral uruguaio. Do lado oposto, Lucho não deixará de seguir os passos de David Luiz, mas num tipo de marcação menos vincado ao homem. Só mais um pormenor: toma nota que neste quadro, mal os jogadores do FC Porto recuperem a bola, já se encontram colocados nas suas posições naturais para desenvolverem a transição ofensiva.

Quique, penso que é tudo. O resto já deves dominar a preceito. De qualquer modo, podias imprimir este excerto do texto e ias a pensar nisto durante a viagem para o Porto. Se houver alguma dúvida, já sabes - o meu endereço de email está vísivel no profile. Fica à-vontade que eu deito-me tarde. O mais certo é estar por aqui a fazer uns dibujos, ok?

Nota final: Quique Flores em Valência

Vale a pena observar o percurso de Quique Flores, na altura treinador do Valência, nomeadamente quanto aos confrontos forasteiros com Barcelona e Real de Madrid.

Época 2005/06:
Barcelona 2-2 Valência
Real de Madrid 1-2 Valência

Época 2006/07:
Barcelona 1-1 Valência
Real de Madrid 2-1 Valência

Curioso. Em quatro visitas aos palcos dos rivais, só por uma vez Quique Flores sentiu o amargo da derrota. Outro dado interessante: o Valência nunca ficou em "branco". Vale o que vale, mas trata-se de um bom indício que não merece ser menosprezado. Pelos vistos, a estratégia de contra-ataque ainda deve conter atributos escondidos...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Entrevista à "Futebolista"

Há cerca de duas semanas, sensivelmente, o Nuno Francisco, director da Revista "Futebolista" desafiou-me para uma curta entrevista, a publicar na edição de Fevereiro. Depois do convite ter chegado à minha caixa de correio electrónico, prontamente devolvi as respostas às questões colocadas pelo remetente. O resultado final agradou-me. Não tenham receio: em primeiro lugar, são só cinco perguntinhas que não aborrecem e acompanham um café de final de tarde; em segundo lugar, prometo que fica rejeitado o risco de ficarmos encantados com a independência da imprensa diária desportiva ou de sermos atraídos por actividades tão nobres como a arbitragem e o dirigismo. Passes de mágica, só no relvado. Assim, À "Futebolista", o meu obrigado pelo destaque. Para os curiosos, a entrevista pode ser lida aqui.

Futebol em Moçambique

O programa Trio D’Ataque, de terça-feira à noite, foi emitido em directo de Moçambique. Para além do debate entre o painel habitual – cada vez mais dependente dos casos de arbitragem – foi simpático rever um monstro sagrado como Mário Coluna, o "Grande Capitão" e testemunhar o local (Mafalala) onde outra glória, o "Rei" Eusébio, deu os primeiros pontapés na bola.

Constatar o facto de dois dos maiores protagonistas encarnados terem raízes africanas, abre espaço à formulação de várias questões. Qual o estado actual do futebol moçambicano? Será possível, nos dias de hoje, ver a história repetir-se? Por outras palavras, qual a potencialidade de miúdos, que correm e jogam de pé descalço, virem a tornar-se os "Coluna’s" e "Eusébio’s" do séc. XXI? É o que tentarei responder nas próximas linhas...

Nomes conhecidos

Armando Sá
Clube
Sepahan (Irão)
Nascimento
16.09.1975 (33 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,76m
Peso: 70kg

Vindo do Sporting de Braga, ao mesmo tempo que Tiago, chegou ao Benfica na época 2001/02. Permaneceu três temporadas na Luz, mas em 2004/05 saíu para o campeonato vizinho - primeiro em direcção ao Villarreal, mais tarde com passagem pelo Espanhol de Barcelona. Ainda experimentou a liga inglesa, mais concretamente o Leeds United, embora o avançar da idade (encontra-se na fase descendente da carreira) o tenha empurrado para a aventura iraniana.

Paíto
Clube
Sion (Suiça)
Nascimento
05.07.1982 (26 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,70m
Peso: 70kg

Lateral-esquerdo, de vocação atacante, fez parte do plantel leonino durante perto de cinco épocas. Contudo, o menor acerto revelado nas tarefas defensivas foi rejeitado pela exigência de Alvalade. Rumou, depois, ao Vitória de Guimarães e Sporting de Braga, representando o Sion há duas épocas consecutivas. Tem Carlitos, também ele ex-jogador de um grande de Lisboa, como companheiro de equipa.

Figura internacional

Simão Junior
Clube
Panathinaikos (Grécia)
Nascimento
23.07.1988 (20 anos)
Naturalidade
Moçambique -
Altura: 1,78m
Peso: 78kg

Após ter dado nas vistas no Ferroviário, Simão Junior é, actualmente, reconhecido como um dos maiores valores moçambicanos. Em 2007/08, o conhecido clube grego não hesitou na hora de apostar neste jovem de enormes qualidades. Fala-se que o FC Porto está atento ao desenvolvimento do jogador, o qual define-se como médio defensivo, forte a jogar sem bola, a roubá-la e a fazer a equipa jogar.

Por sua vez, na competição interna o Ferroviário de Maputo sagrou-se campeão nacional de futebol de 2008, ao vencer na última jornada o Costa do Sol por 2-0. Os "locomotivas" terminaram o "Moçambola" com 56 pontos, mais cinco que o Atlético Muçulmano, concorrente directo.

Festival de Cannes premeia filme moçambicano

Para variar, o programa moderado por Hugo Gilberto terminou com uma surpresa: a apresentação da curta-metragem "A Bola", do realizador Orlando Mesquita. O filme moçambicano, produzido pela Ébano Multimédia, recebeu o prémio especial do júri no festival Cannes Júnior e, também, o Prémio Instituto Camões para a melhor curta-metragem de expressão Lusófona. O vídeo encontra-se disponível aqui. Acreditem que são 4:41 minutos bem empregues...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os Senhores da Europa

Dou início a esta rubrica com uma interrogação: quem foi a última equipa a vencer, de forma consecutiva, a Champions League? Bem, a imagem retira o efeito supresa, acabando por dar resposta à questão. Porém, esta tinha de ser formulada. O texto que se apresenta é inteiramente dedicado ao fantástico AC Milan, os Senhores da Europa.

Últimos vinte anos de Champions League

Comecemos com um pouco de história. De facto, a equpa italiana foi a última a conquistar, duas vezes seguidas, o troféu mais apetecido por treinadores, jogadores e adeptos. Vinte anos atrás, corria a época 1988/89, a dupla Gullit e Van Basten cometeu a proeza de despachar o Steaua de Bucareste, contribuindo cada um com a marcação de dois golos. Na temporada imediatamente a seguir, numa final de má memória para o Benfica, oportunidade para Rijkaard mostrar-se decisivo com a obtenção do tento solitário. O AC Milan dominava a Europa e, de então para cá, o "bis" europeu nunca mais voltou a acontecer.

Próximo passo: sugiro que observemos a história dos últimos vinte anos de Champions League:

Época – Vencedor / Vencido – Resultado (após g.p.)

1988/89 – AC Milan / Steaua Bucareste – 4-0
1989/90 – AC Milan / SL Benfica 1-0
1990/91 – Est. Vermelha / O. Marselha 0-0 (5-3)
1991/92 – Barcelona / Sampdória 1-0
1992/93 – Ol. Marselha / AC Milan 1-0
1993/94 – AC Milan / Barcelona 4-0
1994/95 – Ajax / AC Milan 1-0
1995/96 – Juventus / Ajax 1-1 (4-2)
1996/97 – Bor. Dortmund / Juventus (3-1)
1997/98 – Real Madrid / Juventus 1-0
1998/99 – Man Utd / Bayern Munique 2-1
1999/00 – Real Madrid / Valência 3-0
2000/01 – Bayern Munique / Valência 0-0 (5-4)
2001/02 – Real Madrid / Bayer Leverkusen 2-1
2002/03 – AC Milan / Juventus 0-0 (3-2)
2003/04 – FC Porto / Mónaco 3-0
2004/05 – Liverpool / AC Milan 3-3 (3-2)
2005/06 – Barcelona / Arsenal 2-1
2006/07 – AC Milan / Liverpool 2-1
2007/08 – Man Utd / Chelsea 1-1 (6-5)

Champions League: pódio de vencedores

Real Madrid = 9
1955/56; 1956/57; 1957/58; 1958/59; 1959/60; 1965/66; 1998/98; 1999/00 e 2001/02

AC Milan = 7
1962/63; 1968/69; 1988/89; 1989/90; 1993/94; 2002/03 e 2006/07

Liverpool = 5
1976/77; 1977/78; 1980/81; 1983/84 e 2004/05

Cronologicamente, remetendo-me ao essencial, nota-se uma clara separação geracional entre os clubes incluídos no pódio. A ideia central poderia ser descrita do seguinte modo:
1. As conquistas europeias do Real Madrid, entre 1955 e 1960, marcaram o conceito futebolístico do meu Avô. Personagens como Gento, Puskas e Di Stéfano fazem parte do seu imaginário, incluídos na chamada hegemonia branca.
2 . Em situação idêntica, nas décadas de 70 e 80, foi a vez do meu Pai ser fortemente influenciado pelo domínio dos Red’s de Anfield.
3. Anos mais tarde, chegou a minha vez de ficar rendido ao poderio assombrosso da santíssima trindade, composta pelos conhecidos holandeses do AC Milan daquele tempo.

Os Senhores da Europa

A partida frente ao Steaua de Bucareste, disputada a 14 de Maio de 1989, marca o início do namoro italiano. Quando me lembro dessa final, só posso concluir que o vencedor era mais do que uma boa equipa. Era uma máquina de jogar futebol. A começar pela zona pressionante, implementada por Arrigo Sacchi e depois aprimorada por Fabio Capello. Quando me deparo com qualquer tentativa de comparação táctica, e estratégica, só consigo pensar tratar-se de uma anedota. De mau gosto.

Evidentemente, uma equipa deste nível teria que ser preenchida com valores individuais de topo. E que valores, caros leitores. Atente-se no onze titular dessa final: Galli, Tassoti, Costacurta, Baresi, Maldini, Rijkaard, Donadoni, Ancelotti, Colombo, Gullit e Van Basten. Curiosamente, o AC Milan recente ainda apresenta algumas semelhanças com aquela equipa do passado: (i) uma defesa experiente e sólida, repleta de jogadores italianos, autênticas bandeiras do clube (antes, Tassoti, Baresi e Costacurta; depois, Maldini e Nesta); (ii) um meio-campo assente num misto de intensa capacidade de pressão e imensa qualidade técnica (antes, Rijkaard e Ancelotti; depois, Seedorf e Pirlo); e, (iii) um ataque repleto de jogadores fantásticos, dos melhores do mundo na sua posição (antes, Gullit e Van Basten; depois Kaká, por exemplo).

Hora de terminar. Reconheço que dou particular atenção à história. Os museus explicam, em grande parte, muito daquilo que os clubes representam no presente. Contudo, tendo nascido em 1975, a minha admiração e respeito encontra-se direccionada para Milão. O contrário é que seria de espantar. Nos últimos vinte anos, 8 finais europeias e 5 troféus conquistados chegam e sobram para definir a minha concepção de futebol. Ponto final.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A mística perdida do Sport Lisboa e Benfica

Caros leitores: podem considerar que o 'timing' deste artigo não é o mais adequado. Principalmente depois de ultrapassado o descalabro da Trofa, mercê das vitórias frente a Sp. Braga, para a Liga Sagres, Olhanense, para a Carslberg Cup e após a visita de 'Deus' Maradona ao palco da Luz. Provavelmente, têm razão. Acontece que já há uns dias vinha pensando no tema que dá nome ao título. Como é hábito, as minhas apreciações acerca do universo encarnado não se encontram condicionadas por resultados positivos ou negativos, nem pretende ser um espelho diário da imprensa desportiva.

mística s.f.,
estudo das coisas divinas ou espirituais;
vida contemplativa;
por ext. fanatismo doutrinário.

A natureza da palavra

Ao contrário do termo que aparece no dicionário, quando o assunto é futebol a mística assume um carácter intangível, praticamente inexplicável. Então quando esta diz respeito ao Benfica, o tema assume enormes proporções, com debates sem fim à vista. Muitos, afirmam que as vitórias representam um sinónimo perfeito para a mística. Alguns, preferem falar de amor à camisola. Vários sentem-na, mas é díficil encontrar o significado certo para a palavra. Porque esta é geracional e substancialmente diferente entre um grupo alargado de indivíduos. Dirigentes, treinadores, jogadores, inclusive adeptos, podem ser portadores da mística e, ao contrário do bilhete de identidade, ela é pessoal e transmissível.

Juízo pessoal

Para melhor conhecer e compreender como se construíu a mística do Benfica, aconselharia a leitura do livro 'Pela Mística Dentro'. Porém, num acto irreflectido e arriscado, gostaria de transmitir a minha visão sobre o assunto. É mais difícil do que possa parecer, mas não custa tentar.

Em primeiro lugar, é verdade que a mística ganha asas no momento das maiores celebrações. Nada a opor. Contudo, na época 1965/66, o título nacional foi conquistado pelo Sporting. Será que o plantel do Benfica, nessa temporada, não continha em si a tão famosa mística? Sem hesitar, não me parece. Sendo certo que as vitórias alimentam a lenda, falta algo mais que complete a fórmula mágica.

No meu entender (enchendo o peito de ar), mística é compromisso, identidade e lealdade. Compromisso com uma causa, entendida enquanto dedicação ao emblema, privilegiando um espírito de sacríficio que leve às vitórias. Identidade com as raízes do clube, conhecendo a sua história e respeitando os seus protagonistas. Lealdade com um símbolo, defendendo com prazer e orgulho a camisola que dá cor a uma nação.

Actualmente, não será descabido afirmar que a mística encontra-se depositada em Rui Costa. O director desportivo preenche os requisitos enunciados, sendo das poucas vozes da estrutura encarnada que todos fazem questão de escutar. Indubitavelmente, o seu percurso fala por si: inicialmente como atleta dos escalões jovens, apanha-bolas, jogador profissional da primeira equipa, a saída para o estrangeiro, entre lágrimas, o regresso sentimental do filho pródigo e, mais tarde, o pendurar das botas e a missão de fato e gravata. A mística é isto.

1. Exemplo de Estugarda (1988)

E quanto à realidade presente? Que dizer dos jogadores que constituem o plantel às ordens de Quique Flores? Já lá iremos. Por agora, façamos uma viagem, no passado. Em 25 de Maio de 1988, o Benfica atingiu a final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, marcada pelo dramatismo do penalty falhado por Veloso, na altura capitão encarnado. A escolha deste facto tem uma explicação lógica: como não vivi a glória da década de 60 e era muito novo aquando da final da Taça Uefa, frente ao Anderlecht, a caminhada europeia desse ano marcou a minha forma de olhar para o Benfica. Tinha 13 anos e, apesar da tristeza associada à derrota, pude constantar que compromisso, identidade e lealdade não eram palavras vãs. No fundo, a imagem que guardo desses tempos é só uma: mística.

A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, Veloso, Dito, Mozer e Álvaro; Chiquinho, Elzo, Shéu e Pacheco; Mats Magnusson e Rui Águas.

Para não variar, apresento mais um exercício que consiste em identificar, para cada jogador presente na final de 1988, quantas épocas consecutivas levavam de águia ao peito. Exemplo: à data, o guarda-redes Silvino cumpria o segundo ano consecutivo ao serviço do Benfica. No fim, o valor total resume a soma das épocas de todos os jogadores.

Silvino (2.ª época)
Veloso (8.ª)
Dito (2.ª)
Mozer (1.ª)
Álvaro (7.ª)
Chiquinho (2.ª)
Elzo (1.ª)
Shéu (16.ª)
Pacheco (1.ª)
Mats Magnusson (1.ª)
Rui Águas (3.ª)

Total = 44 épocas

Podem os jogadores estrangeiros compreender a mística?

A resposta à questão é afirmativa. No entanto, ressalve-se que essa assimilação depende de vários factores: por um lado, a própria personalidade do jogador influencia a absorção de ensinamentos ligados à identidade do clube; por outro lado, a estrutura do departamento de futebol tem enorme responsabilidade em assegurar a transmissão de informação histórica e os colegas de equipa com mais anos de casa devem assumir-se como veículos condutores da velha mística. No caso concreto da equipa titular na final de Estugarda, o brasileiro Mozer e o sueco Magnusson apresentam episódios curiosos. Proponho a leitura dos links disponíveis, comprovando a certeza da resposta dada.

2. Exemplo de Viena (1990)

Dois anos mais tarde, a 23 de Maio de 1990, o Benfica volta a viver a emoção de disputar uma final europeia, desta feita contra o fantástico AC Milan de Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco Van Basten. Lamentavelmente, o resultado (derrota por 1-0) voltou a ser desfavorável à equipa portuguesa. Todavia, a campanha desse ano ficou positivamente marcada pela meia-final diante do Marselha. Ainda hoje, passados quase vinte anos passados, todos se recordam da mão de Vata, num Estádio da Luz a fervilhar de emoção. Um vulcão de mística.

A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, José Carlos, Aldair, Ricardo Gomes e Samuel; Hernâni, Vítor Paneira, Jonas Thern, Valdo e Pacheco; Mats Magnusson.

Silvino (4.ª época)
José Carlos (1.ª)
Aldair (1.ª)
Ricardo Gomes (2.ª)
Samuel (7.ª)
Hernâni (2.ª)
Vítor Paneira (2.ª)
Jonas Thern (1.ª)
Valdo (3.ª)
Pacheco (3.ª)
Mats Magnusson (3.ª)

Total = 29 épocas

A mística enquanto factor X

O que realmente importa e pretendo provar é que a mística daquele tempo não encontra paralelo na conjuntura actual, muito por culpa das constantes entradas e saídas a que os plantéis são sujeitos. Tornou-se prática afirmar: não basta ter jogadores de qualidade para ter uma boa equipa. Eu iria mais longe: uma boa equipa pode basear-se num conjunto de jogadores acima da média, mas sem esquecer todos aqueles que amam a camisola que envergam. E, na minha opinião, quanto mais anos um jogador estiver no clube, mais facilmente compreenderá o verdadeiro significado do que a mística representa. Na maioria das vezes, acaba por representar a diferença ténue entre o êxito e o fracasso. O tal factor X. Embora, nos dias de hoje, seja comum falar-se em atitude.

Cenário presente

De regresso ao momento actual, procurei seleccionar um onze tipo ideal e, tal como feito anteriormente, desenvolver o mesmo tipo de exercício com os parâmetros previamente definidos.

Moreira (9.ª época)
Maxi Pereira (2.ª)
Luisão (6.ª)
Miguel Vítor (1.ª)
David Luiz (3.ª)
Ruben Amorim (1.ª)
Katsouranis (3.ª)
Hassan Yebda (1.ª)
José Antonio Reyes (1.ª)
Pablo Aimar (1.ª)
David Suazo (1.ª)

Total = 29 épocas

Comparativamente com a saudosa equipa da final de Viena, resulta interessante verificar a igualdade no número total de épocas. A diferença está no seguinte: no onze titular da década anterior destaca-se uma maior homogeneidade entre os seus elementos e preponderância de jogadores portugueses; no plantel actual seis jogadores cumprem a sua primeira época e só Moreira e Luisão perfazem, em conjunto, quinze temporadas ao serviço do clube.

Termino com um desafio: e para si, caro leitor, o que é a mística?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

[Taça da Liga] V. Guimarães 0-2 SL Benfica

Quanto à partida, não me vou alongar demasiado. Foi perceptível a diferença na atitude dos jogadores, para melhor, conjugada com elevados índices de concentração e solidariedade defensiva. É verdade que ajudou o facto do golo ter aparecido cedo. Porém, a equipa teve um comportamento táctico digno de registo e transmitiu, quase sempre, tranquilidade a quem seguia o jogo. Em resumo: a performance colectiva esteve longe de ser brilhante, até porque na 2.ª parte a equipa chegou, praticamente, a abdicar do ataque, mas há que realçar o acerto posicional e a agressividade imposta nas transições defensivas. Ficou patente que, por vezes, mais vale evitar o uso excessivo do futebol directo e, ao invés, privilegiar uma posse de bola segura que permita um maior controlo dos acontecimentos.

Para finalizar, gostaria de dedicar este parágrafo a Miguel Vítor. Curiosamente, o jovem formado nas escolas do Benfica foi o único jogador português a constar da lista inicial do onze titular. Até Carlos Carvalhal, que comentava as incidências da partida, referiu-se à sua actuação (personalizada) em tom elogioso. Não podia estar mais de acordo. Apesar de um ou outro erro, sem consequências de maior, que bela exibição fez o 'míudo': muito concentrado e determinado, raramente perdeu lances divididos e revelou enorme disponibilidade para "varrer" a sua área de jurisdição. Congratulo-me por verificar que um jogador formado na Luz vai conquistando o seu espaço, ganhando a confiança de colegas, o respeito de adversários e a admiração do mundo do futebol. Embora haja quem pense o contrário, sou da opinião que a construção da mística passa muito pela aposta e crescimento de jogadores umbilicamente ligados ao clube que representam. Para os mais puristas, em questão de números, vale a pena observar a sua estatística pessoal, referente à época em curso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

[Liga Sagres 13.ª J] Trofense 2-0 SL Benfica

Quatro dias após a passagem de ano, a primeira desilusão de 2009 teve origem num pequeno município situado no extremo norte do distrito do Porto. Como seria de esperar, a derrota frente ao Trofense fez (e continua a fazer) correr muita tinta. Infelizmente, não tenho o poder de explicar este último desaire, nem a fórmula mágica capaz de apontar soluções para os problemas mais prementes. Ainda assim, de modo a evitar a repetição ad eternum dos mesmos argumentos, sugiro a leitura de alguns posts que traduzem a minha visão do mundo encarnado. Sem querer ser pretencioso, nas entrelinhas podem-se encontrar ligeiros "gritos de alerta": a política desportiva de aposta na formação, a limpeza de balneário, o sistema táctico e os princípios de jogo de Quique Flores e, também, o ADN de um clube histórico.

Agora, oportunidade para um exercício de memória interessante: comparar a actual equipa com aquela que conquistou o título nacional em 2004/05. Para além das naturais diferenças na estrutura de futebol, equipa técnica incluída, importa distinguir certas particularidades em termos de plantel:

- Época 2004/05
Dezassete jogadores portugueses (50% do plantel)
Nove nacionalidades distintas
Numa equipa liderada pela "raposa" Trapattoni, espremida ao máximo, o onze normalmente titular contemplava oito atletas portugueses: Quim, Miguel, Ricardo Rocha, Petit, Manuel Fernandes, Nuno Assis, Simão e Nuno Gomes.

- Época 2008/09
Oito jogadores portugueses (29,6% do plantel)
Treze nacionalidades diferentes
Numa equipa comandada por Quique Flores, o onze que costuma entrar em campo raramente contempla mais do que quatro portugueses e, para a maioria, trata-se do primeiro ano a jogar na Luz.

Se pretendesse ser mais pormenorizado, poderia acrescentar mais dados à discussão. Todavia, bastam algumas linhas para provar o que pretendo.
Na temporada 2004/05 a equipa ostentava a conquista da Taça de Portugal, na época imediatamente anterior, com um núcleo duro de jogadores que vinham a ser moldados há dois ou três anos. Tratava-se de um plantel em fase de maturação competitiva que, sem cativar em termos exibicionais, mostrava-se no ponto crítico de estabilidade para finalmente vencer a principal competição nacional. Apesar das críticas, era uma equipa segura e talhada para vencer. Na altura, Simão assumia um protagonismo e brilhantismo imcomparável com os dias de hoje.
Na presente temporada, numa equipa praticamente renovada de alto a baixo, poucos podem orgulhar-se de terem sido campeões de águia ao peito. Não existe dinâmica de vitória porque, pura e simplesmente, estes jogadores não têm o hábito de vencer. Trata-se, assim, de um plantel em fase quase embrionária, a necessitar de crescimento rápido, com bons valores individuais, mas que denota imensas dificuldades colectivas em perceber a pressão dos adeptos e lidar com o "ruído" que sempre aparece do exterior. Essencialmente, para muitos deles, falta personalidade que encaixe na grandiosidade do clube, notando-se claramente a carência de mística.

Bem, chegados a este ponto, importa colocar uma questão. Deverá Rui Costa, em conjunto com a Direcção da SAD, optar pela destituição do treinador espanhol, proceder a novas entradas e saídas no mercado de Inverno e, inclusive, efectuar a milionésima revolução do futebol encarnado? Sem hesitações, respondo: Não! De todo! Mesmo que, logo à noite, António-Pedro Vasconcelos diga o contrário.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A todos os leitores II:

Repetindo os votos da semana passada, volto a desejar um 2009 com mais razões para sorrir face ao ano que está prestes a terminar. Num misto de paciência e sabedoria, espero que consigam ultrapassar os momentos menos bons, saboreando cada pedaço de alegria que a vida nos proporciona. Partam, definitivamente, para aquele projecto que constantemente têm adiado e persigam os vossos sonhos. Façam de 2009 um ano marcante. Pela positiva.

Como já não faltam muitas horas para dobrar o novo ano, impõe-se um balanço destes últimos 12 meses. A melhor forma encontrada para esse exercício traduziu-se numa criteriosa selecção dos artigos que fui escrevendo, desde que o blogue foi criado. Uma espécie de top 10 Catenaccio.

Não poderia finalizar sem deixar de agradecer todos os incentivos recebidos, contando com as visitas diárias e comentários feitos neste espaço, esperando que 2009 traga mais motivos para nos encontramos neste 'cantinho' virtual. Do mais antigo para o mais recente, recordemos, agora, o melhor de 2008:

1. A demissão de José António Camacho

2. Manifestação "Orgulho Benfiquista"

3. Profile de Quique Sánchez Flores

4. A novela Cristiano Ronaldo

5. Portugal no Euro'2008

6. A consagração espanhola

7. O pensamento futebolístico de Quique Flores: táctica e modelo de jogo

8. Mercado de transferências europeu 2008/09

9. Software aos serviço do futebol

10. Os novos "bebés" de Matosinhos

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A todos os leitores I:

Votos de Boas Festas, com muita Paz, Saúde e Alegria, na companhia de familiares e amigos, não esquecendo (obviamente!) de juntar as iguarias da consoada à tradicional jornada "Boxing Day".

Feliz Natal!