quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar em Alvalade?

No dia 1 de Dezembro de 1907, no Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting defrontaram-se para o Campeonato de Lisboa. Ninguém poderia adivinhar que seria um dia para a memória do país. Mais de um século depois, aproxima-se o derby eterno de todas as emoções.

Sporting – Benfica: de 2000/01 a 2007/08

Aproveitemos para revisitar a história recente, a partir do século em que nos encontramos.

2000/01: Sporting 3-0 Benfica (Acosta, Pedro Barbosa, Beto)
2001/02: Sporting 1-1 Benfica (Jardel; Jankauskas)
2002/03: Sporting 0-2 Benfica (Zahovic, Tiago)
2003/04: Sporting 0-1 Benfica (Geovanni)
2004/05: Sporting 2-1 Benfica (Liedson 2; Nuno Gomes)
2005/06: Sporting 2-1 Benfica (Luís Loureiro, Liedson; Simão)
2006/07: Sporting 0-2 Benfica (Ricardo Rocha, Simão)
2007/08: Sporting 1-1 Benfica (Vukcevic, Cardozo)

Numa análise simplista, facilmente se conclui que o equilíbrio é a nota dominante - nos derbys do século XXI, dois empates a uma bola intrometem-se no conjunto de três vitórias para cada lado. Se alguém quiser arriscar um prognóstico, tentem adivinhar a sequência seguinte: V-E-D-D-V-V-D-E-?

Chave do derby

Desfeitas algumas indecisões, nas escolhas técnicas dos melhores intépretes, a chave do derby está...na imaginação individual dos jogadores mais talentosos. Um dia, Cruijff teve um expressão curiosa, ao afimar que "a Itália nunca venceria a Holanda, mas a Holanda poderia perfeitamente perder com a Itália". Neste caso, para ambos os clubes envolvidos na contenda, poderia apostar na lógica seguinte: (i) para não perder bastará seguir à risca o plano táctico traçado, acrescentando-lhe doses elevadas de motivação e concentração; (ii) para vencer será necessário libertar a imaginação dos homens capazes de desequilibrar - a fantasia de Reyes, os remates de Izmailov, os passes de Aimar, a técnica de Vukcevic, a velocidade de Suazo, a mobilidade de Liedson. O colectivo pauta o equilíbrio. O indivíduo decide o derby.

O "telefone vermelho"

Tal como feito aquando da visita ao dragão, as linhas que se seguem poderiam representar a abertura de um canal de comunicação com Quique Flores. Uma espécie de "telefone vermelho". Nada a ver com a transmissão entre a Casa Branca e o Kremlin, excepção feita ao precioso objecto que serve de inspiração a esta loucura literária.

"Alô!? Quique? Daqui Catenaccio. Estou bem, obrigado. Epá, se não te importas, podes desligar a PS3? Já agora, o som de flamenco também está um bocado alto. Desculpa lá, mas o que tenho para falar contigo é importante. O Paco está por aí? Óptimo. Ele que traga o papel cavalinho e comece por desenhar um losango. Então, escuta com atenção..."

Um olhar sobre o rugido do leão

Muito bem. Comecemos pelo intervenientes que movimentam o losango. Pega nestes nomes e coloca-os nos sítios apropriados: Tiago, Abel, Carriço, Polga, Caneira, Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic, João Moutinho, Liedson e Hélder Postiga. À primeira vista, pode parecer um daqueles puzzles do Papagaio Sem Penas, mas vais ver que até uma criança de 4 anos sabe encaixar as peças correctamente. Já está? Claro, não era difícil. Faz o seguinte: desmonta tudo e imprime a imagem que fiz questão de digitalizar. Sabes, é que o Paulo Bento gosta de inovar algumas "nuances" geométricas – o 4x4x2 losango híbrido.

Quique, em relação à atitude mental é manter a personalidade registada no dragão. Quanto a isso, estamos conversados. Agora, não te deixes enganar com o cabelinho do Paulo Bento. Cuidado, pois o treinador leonino não procura atingir a águia com o primeiro disparo; antes guarda a pólvora para o momento em que algumas penas forem caindo no relvado. Para que tu entendas: acredito que o Sporting vai deixar o Hélder Postiga no banco e Vukcevic será o companheiro de Liedson, na frente de ataque. Faz toda a diferença, sabes?

Em primeiro lugar, creio que o meio-campo será fortalecido com um elemento mais preparado para a transição defensiva. Embora o Escribá te possa dizer o contrário, o Paulo Bento sabe que vamos alinhar com uma linha de quatro jogadores no meio-campo. Quique, repara no seguinte: com Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic e João Moutinho, o 4x4x2 losango acaba por assemelhar-se, em posse de bola, a um 4x1x3x2. Face à qualidade técnica dos nossos jogadores ofensivos, é previsível a inclusão de Vukcevic numa zona próxima de Liedson.
Em segundo lugar, o jogador montenegrino encontra-se numa forma excelente e seria contraproducente utilizá-lo em tarefas defensivas. Por conseguinte, a colocação do ex-proscrito de Paulo Bento em terrenos mais avançados, permite que a liberdade concedida se transforme em ocasiões de golo. Desta forma, com Izmailov na meia-esquerda, mais qualificado para suportar as eventuais de Maxi Pereira, a dupla de leste pode apoveitar a lentidão de Luisão e o espaço deixado nas costas da nossa defesa.

Só mais uma dica relacionada com os cruzamentos - cautela na forma como a equipa faz a basculação em largura, porque os cruzamentos vindos da direita, perto da grande área, costumam apontar para a entrada de um elemento ao segundo poste; ao invés, no flanco contrário, há a tendência para tentar chegar à linha de fundo, através de acção individual, solicitando depois, com um passe atrasado, a chegada de um companheiro nas imediações da grande área.

Quique, claro que haveria muito mais aspectos estratégicos para debater. Se pretenderes aprofundar alguns temas, fica sabendo que estou disponível para jantar no "La Paparrucha". Obviamente, a logística e todos os gastos suplementares ficam por tua conta.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Regulations on Player Status and Transfers

A chamada de atenção partiu do consócio Americano, escriba do blogue Ontem vi-te no Estádio da Luz, com base num artigo publicado no 'Futebol Finance' sobre as novas regras para transferências e salários de jogadores de futebol.

Cronologia dos acontecimentos

No final de Janeiro, foi noticiado que a UEFA tinha encetado conversações com a European Club Association (ECA), no sentido de regulamentar a quantidade de verbas que cada clube pode despender em transferências e salários de jogadores. De acordo com um alto responsável da UEFA, a proposta dos maiores clubes Europeus sugeria que apenas fosse permitido aos clubes gastar 51% das suas receitas na aquisição de novos jogadores e nos seus salários.
No dia 10 de Fevereiro, a Assembleia Geral da ECA alcançou outros progressos significativos: (i) na protecção dada aquando da assinatura do primeiro contrato profissional, por parte de jovens talentos futebolísticos; e, (ii) na discussão sobre itens incluídos no artigo 17 da FIFA - Regulations on the Status and Transfer of Players.

Âmbito da proposta

Segundo a proposta da ECA (antigo G-16), as receitas elegíveis para apurar os 51% do montante de transferências são: bilheteira, patrocínios, merchandising e direitos televisivos. Todavia, as receitas não devem incluir nenhum investimento financeiro de proprietários ou accionistas dos clubes.

Sem querer abusar de uma linguagem demasiado técnica, creio ser útil adiantar alguns esclarecimentos.
Em primeiro lugar, há que distinguir os conceitos seguintes: receitas (reconhecimento da recepção de um valor em troca de um bem ou serviço cedido) respeitam a óptica financeira; proveitos (bens ou serviços acabados de produzir e aptos para venda) seguem a óptica económica; e, por fim, recebimentos (entradas de dinheiro) correspondem à óptica de tesouraria.
Em segundo lugar, no seguimento do anterior, acrescente-se que as receitas não se perfilam, necessariamente, como papel químico da época desportiva, existindo situações conhecidas de antecipação das mesmas, sendo os direitos televisivos o exemplo mais recorrente; numa perspectiva distinta, a demonstração de resultados líquidos espelha a concorrência entre os montantes contabilizados de custos e proveitos.
Pretendo, apenas, deixar bem vincado que o rácio de 51% das receitas elegíveis pode ser passível de manipulação financeira. Aquilo a que muitos costumam denominar de contabilidade criativa. Para os mais curiosos nestas matérias, informo que o Orgão de Gestão de Licenciamento, da Federação Portuguesa de Futebol, ocupa-se, entre outros tópicos, dos procedimentos de admissão dos clubes às competições da UEFA. O Manual de Licenciamento pode ser acedido aqui.

Caso prático para a realidade nacional

Tendo como suporte o Relatório & Contas Consolidado 2007/2008 da Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD para o período de 1 de Agosto de 2007 a 30 de Junho de 2008, atente-se nos seguintes valores de receita (em milhares de euros):

Proveitos Operacionais

Publicidade e patrocínios = 9.726
Transmissões televisivas = 8.409
Prémios das competições europeias = 7.883
Quotizações = 7.848
Receitas de bilheteira = 7.686
Cativos = 2.868
Merchandising = 2.470
Outros = 2.613

Total (sem considerar transacções de atletas) = 49.503 - 49,5 m€

Notas adicionais importantes, retiradas do Relatório & Contas:

1. "O Grupo reconhece, como proveitos, cerca de 75% do valor líquido das quotizações de Sócios, que são proveitos da Benfica SAD ao abrigo do contrato de cedências dos direitos de exploração do Complexo Desportivo, no período a que estas se reportam".

2. "As receitas e prémios de jogos são reconhecidos em proveitos no período em que estes são realizados".

3. "O Grupo reconhece as receitas relativas a publicidade, patrocínios e outros direitos de acordo com o período de vigência do respectivo contrato".

4. "Naturalmente, no médio e longo prazo, deverá ser obtido um crescimento muito significativo das receitas operacionais quando chegar o momento adequado para a renegociação dos direitos televisivos".

Voltemos ao artigo publicado no 'Futebol Finance'. Conforme análise do autor, validam-se os dados apresentados:

- 51% das receitas (leia-se proveitos operacionais) 2007/2008: 49,5 m€ x 51% = 25.2 m€
- Gasto em jogadores 2008/2009: 25,3 m€

Contudo, subsiste a dúvida em saber qual a decisão dos dois organismos em relação às aquisições feitas a prestações e à integração das receitas provenientes da quotização.

Lei "salva calcio"

Introduzido pelo governo italiano, o decreto-lei n.º 282 de 24 de Dezembro de 2002 deu origem à Lei "salva calcio" n.º 27 de 21 de Fevereiro de 2003. Stephen Morrow, professor na Universidade de Stirling - Department of Sports Studies - debruçou-se sobre o impacto contabilístico, na realidade do futebol italiano, das prerrogativas admitidas pelo "salva calcio". Inicialmente, o decreto foi adoptado por quinze clubes: sete da série A (incluindo Inter, Lazio, Milão e Roma) e oito da série B, segunda divisão. Em traços gerais, esta disposição legal permitia aos clubes estender o período de amortização inicial, associado ao contrato de um jogador profissional entendido como um activo intangível da organização. No caso do valor de mercado, de determinado atleta, sofrer uma perda no valor de realização, o correspondente efeito não seria registado na demonstração de resultados do exercício. Principal consequência: sem a introdução legal deste arranjo, existia o risco elevado de vários clubes enfrentarem um cenário de insolvência - onde as dívidas excederiam os activos - pois as sociedades desportivas não estariam em posição para fazer face às amortizações, no curto prazo. Apesar das boas intenções (e o mesmo pode suceder quanto ao regulamento anteriormente referido), este tratamento contabilístico não escapou a algumas vozes mais críticas: o suporte legal deu azo a que diversos clubes mantivessem uma actuação inadequada, no exercício da gestão financeira - acréscimo de activos, aumento da massa salarial e consequente ampliação dos custos com amortizações - cedendo à tentação de mascarar as peças contabilísticas divulgadas. O princípio era claro: os clubes, ao serem encorajados a transaccionar acima da sua sustentabilidade de longo prazo, procuravam atingir rácios financeiros que cumprissem com o sistema de licenciamento imposto pela UEFA.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

[Liga Sagres 17.ª J] FC Porto 1-1 SL Benfica

Pergunta: para quê escrever rebuscados tratados sobre modelos de jogo, quando dragão não rima com táctica? Com emoção, talvez. Com desilusão, sem dúvida. Também há quem diga que dragão rima com organização. Típica expressão à la Rui Moreira. Seis milhões de indivíduos chamar-lhe-iam outra coisa...

Não vou escrever sobre as incidências do clássico. Pura e simplesmente não me apetece rebater dibujos tácticos. Tampouco analisar a performance exibicional dos jogadores encarnados. Pretendo, apenas, enviar uma mensagem à família benfiquista.

Faltam treze jornadas para o término da Liga Sagres. No meu entender, é a altura decisiva para enterrar "machados de guerra" internos. Por outras palavras, até final da competição sugiro que o sentimento de união prevaleça sobre a toada crítica que a imprensa desportiva faz questão de lembrar diariamente.

Não é o momento certo para testar a eloquência de Luís Filipe Vieira. Não é o "timing" ideal para criticar a tonalidade das gravatas de Rui Costa. Não é, concerteza, a altura correcta para desconfiarmos das competências técnicas de Quique Flores. Não há razão para assobiar este ou aquele jogador, suspirando por uma estrela futebolística da qual vimos maravilhas no You Tube.

Diferentes opiniões, ou perspectivas, não devem servir como desculpa para que a nação encarnada se desvie do objectivo principal - a conquista da Liga Sagres, nem devem atraiçoar a dura realidade dos factos: estamos envolvidos numa luta desigual, contra um adversário mais do que identificado, a fazer exigir um espírito colectivo, de acordo com o nosso lema - Et Pluribus Unum!

P.S. Ao contrário dos critérios literários definidos como excelentes, esta entrada registou a palavra não em oito ocasiões. O negativismo expresso no texto espelha o estado de alma do autor, derivado da prática de mais uma machadada na verdade desportiva - como se o futebol português ainda tivesse algo saudável a que se agarrar. Aos leitores, as minhas desculpas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar no Dragão?

Na contagem decrescente para a partida do dragão, impõe-se a seguinte interrogação: será o jogo decisivo para o desfecho da Liga Sagres? Depende. A resposta só é afirmativa no caso da vitória sorrir ao FC Porto. Nesse cenário, os actuais detentores do troféu dilatariam o avanço, sobre o rival, para além de beneficiarem do confronto directo, em caso de igualdade, mercê do empate registado na Luz.

O treino como fotograma do «jogar»

Nestes encontros, tornou-se hábito afirmar que o vencedor será aquele que melhor controlar o factor imprevisibilidade. O tópico sobre o domínio dos detalhes – físico, mental, táctico e técnico – pode ser encarado como a gestão eficaz dos pormenores: a importância de uma bola parada ou um momento de desconcentração na transição defensiva, entre outras circunstâncias ditadas pelo desenrolar da própria partida. Apesar do âmbito natural dos treinadores ser um espaço limitado, quanto mais situações particulares forem treinadas, menor será a influência deste factor.

Chave do clássico

No meu entender, a chave do clássico está em...Quique Flores! Do lado do campeão nacional, a imprevisibilidade, positiva ou negativa, encontra-se, cada vez mais, dominada pela maturidade táctica trabalhada por Jesualdo Ferreira. Ao contrário, no Benfica, o grupo depende, em demasia, da inspiração e talento das individualidades. Cabe ao treinador espanhol reduzir o impacto associado ao que commumente se denomina de sorte e azar, levando a equipa a assimilar índices elevados de confiança, consistência e personalidade.

Lado mental ou táctico?

Deste modo, para a nação benfiquista, as decisões protagonizadas por Quique Flores podem representar a ténue diferença entre o ponto de ebulição ou o arrefecimento dos níveis de euforia. Em primeiro lugar, as escolhas técnicas: quem fará parte do onze titular? Miguel Vítor ou Sidnei? Carlos Martins ou Yebda? Di María ou Reyes? Cardozo ou Suazo? Em segundo lugar, como conciliar uma estratégia de contra-ataque com um discurso ambicioso? A meu ver, reside aqui a questão fundamental: como será Quique capaz de motivar e tranquilizar os seus jogadores, sabendo-se que a mensagem para o exterior, plena de convicção e modernidade, nem sempre se coaduna com o real comportamento no relvado, assente em linhas posicionadas num bloco médio-baixo e excesivamente dependente da aposta na velocidade de Suazo, com passes em profundidade? Conflito entre o lado mental e a vertente táctica.

Um olhar sobre os passos do dragão

Sem pôr de parte uma pitada de seriedade, esta secção tem um registo mais irónico. A ideia é imaginar um conjunto de enunciados transmitidos directamente a Quique Flores. Uma espécie de conversa fictícia, completamente orientada para a 2.ª pessoa do singular. Poderia ser, mais ou menos, uma coisa do género...

Quique, como o Diamantino já te explicou, o FC Porto tem construído a sua "casa" táctica à volta do 4x1x3x2. Os jogadores, e posições respectivas, já conheces. Basta lembrares-te daqueles que não coleccionaram bilhete de comboio: Fucile, Rolando, Bruno Alves e Cisskho, no quarteto defensivo; como tampão às investidas ofensivas do adversário, Fernando; mais à frente, um trio constituído por Lucho González, Raul Meireles e Cristián Rodríguez; por fim, na zona de finalização, a dupla formada por Hulk e Lisandro. Suponho que, até aqui, estás a acompanhar.

a) O FC Porto, com bola

Quique, a parte que se segue é importante. Por esta altura, já reconheces as deficiências da tua equipa, logo deves prever que o adversário procure atacar os nossos pontos fracos. Um deles, tem a ver com a maior liberdade concedida a Maxi Pereira. Eles podem aproveitar esse espaço nas costas, caindo do lado de Luisão que, já de si, não prima pela velocidade de reacção. É natural que Hulk pise esses terrenos e há que tomar cuidados acrescidos. O outro, está relacionado com o excessivo espaço entre os jogadores encarnados, principalmente na zona do meio-campo. Bem sei que o Ruben Amorim interioriza e dá um apoio fundamental, mas é prevísivel que Lucho e Rodríguez tentem forçar o eixo central. Portanto, muita atenção à forma como a equipa pressiona em largura e à interligação dos diversos sectores.

b) O FC Porto, sem bola: versão 4x3x3

Quique, se calhar é melhor ires chamar o Paco que agora vão aparecer uns dibujos. Editando a imagem, até podes pensar nalguns melhoramentos: (i) se quiseres indicar os movimentos de transição, adicionas umas setas; (ii) se pretenderes representar a dinâmica dos jogadores, acrescentas uns raios de acção; e, (iii), caso queiras espelhar a forma como a zona deve ser interpretada, colocas zonas individuais de intervenção. Por fim, exportas o resultado final para powerpoint e vais ver que resulta. Bem, vamos ao que interessa?

Quique, quando o FC Porto não tem a posse de bola, pode optar por vários caminhos de pressão que melhor sirvam a tarefa de recuperação e consequente saída rápida para o ataque. Antes que possas retorquir - se o FC Porto actua, preferencialmente, num 4x1x3x2, porquê esta ilustração em 4x3x3? - adianto que Jesualdo Ferreira pode pensar neste esquema posicional, como forma de melhor distribuir os jogadores no relvado. Esta versão tem a particularidade de potenciar uma pressão média-alta, sendo muito agressiva no eixo central. A intenção será impedir a nossa saída de bola, asfixiando Yebda e Katsouranis. Quando assim acontecer, dá logo a instrução para a transição ofensiva seguir circuitos junto à linha, quer por intermédio de Maxi Pereira, quer através do apoio de David Luiz. Por razões ligadas a características individuais, Rodríguez, à esquerda, e Lisandro, à direita, nem sempre vão ter a disponibilidade física para acompanhar o lateral da sua faixa.

c) O FC Porto, sem bola: versão 4x1x3x2

Quique, chama o Paco outra vez que ainda não terminámos. O próximo dibujo, em termos meramente posicionais, oferece a perspectiva típica do FC Porto actual.

Neste cenário, o adversário procura a intensidade de um primeiro momento de pressão, sendo que Hulk cai no espaço entre Maxi Pereira e Luisão, enquanto Lisandro pisa os calcanhares de Miguel Vítor (Sidnei?) e David Luiz. Porém, ao contrário do que possa parecer, esta hipótese deixa maior margem de manobra para a dupla Yebda e Katsouranis saírem com a bola jogável. Inteligentemente, diga-se de passagem, será de esperar que caiba a Raul Meireles (e não a Rodríguez) a função de fechar o lado esquerdo, precavendo as subidas do nosso lateral uruguaio. Do lado oposto, Lucho não deixará de seguir os passos de David Luiz, mas num tipo de marcação menos vincado ao homem. Só mais um pormenor: toma nota que neste quadro, mal os jogadores do FC Porto recuperem a bola, já se encontram colocados nas suas posições naturais para desenvolverem a transição ofensiva.

Quique, penso que é tudo. O resto já deves dominar a preceito. De qualquer modo, podias imprimir este excerto do texto e ias a pensar nisto durante a viagem para o Porto. Se houver alguma dúvida, já sabes - o meu endereço de email está vísivel no profile. Fica à-vontade que eu deito-me tarde. O mais certo é estar por aqui a fazer uns dibujos, ok?

Nota final: Quique Flores em Valência

Vale a pena observar o percurso de Quique Flores, na altura treinador do Valência, nomeadamente quanto aos confrontos forasteiros com Barcelona e Real de Madrid.

Época 2005/06:
Barcelona 2-2 Valência
Real de Madrid 1-2 Valência

Época 2006/07:
Barcelona 1-1 Valência
Real de Madrid 2-1 Valência

Curioso. Em quatro visitas aos palcos dos rivais, só por uma vez Quique Flores sentiu o amargo da derrota. Outro dado interessante: o Valência nunca ficou em "branco". Vale o que vale, mas trata-se de um bom indício que não merece ser menosprezado. Pelos vistos, a estratégia de contra-ataque ainda deve conter atributos escondidos...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Entrevista à "Futebolista"

Há cerca de duas semanas, sensivelmente, o Nuno Francisco, director da Revista "Futebolista" desafiou-me para uma curta entrevista, a publicar na edição de Fevereiro. Depois do convite ter chegado à minha caixa de correio electrónico, prontamente devolvi as respostas às questões colocadas pelo remetente. O resultado final agradou-me. Não tenham receio: em primeiro lugar, são só cinco perguntinhas que não aborrecem e acompanham um café de final de tarde; em segundo lugar, prometo que fica rejeitado o risco de ficarmos encantados com a independência da imprensa diária desportiva ou de sermos atraídos por actividades tão nobres como a arbitragem e o dirigismo. Passes de mágica, só no relvado. Assim, À "Futebolista", o meu obrigado pelo destaque. Para os curiosos, a entrevista pode ser lida aqui.

Futebol em Moçambique

O programa Trio D’Ataque, de terça-feira à noite, foi emitido em directo de Moçambique. Para além do debate entre o painel habitual – cada vez mais dependente dos casos de arbitragem – foi simpático rever um monstro sagrado como Mário Coluna, o "Grande Capitão" e testemunhar o local (Mafalala) onde outra glória, o "Rei" Eusébio, deu os primeiros pontapés na bola.

Constatar o facto de dois dos maiores protagonistas encarnados terem raízes africanas, abre espaço à formulação de várias questões. Qual o estado actual do futebol moçambicano? Será possível, nos dias de hoje, ver a história repetir-se? Por outras palavras, qual a potencialidade de miúdos, que correm e jogam de pé descalço, virem a tornar-se os "Coluna’s" e "Eusébio’s" do séc. XXI? É o que tentarei responder nas próximas linhas...

Nomes conhecidos

Armando Sá
Clube
Sepahan (Irão)
Nascimento
16.09.1975 (33 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,76m
Peso: 70kg

Vindo do Sporting de Braga, ao mesmo tempo que Tiago, chegou ao Benfica na época 2001/02. Permaneceu três temporadas na Luz, mas em 2004/05 saíu para o campeonato vizinho - primeiro em direcção ao Villarreal, mais tarde com passagem pelo Espanhol de Barcelona. Ainda experimentou a liga inglesa, mais concretamente o Leeds United, embora o avançar da idade (encontra-se na fase descendente da carreira) o tenha empurrado para a aventura iraniana.

Paíto
Clube
Sion (Suiça)
Nascimento
05.07.1982 (26 anos)
Naturalidade
Moçambique - Maputo
Altura: 1,70m
Peso: 70kg

Lateral-esquerdo, de vocação atacante, fez parte do plantel leonino durante perto de cinco épocas. Contudo, o menor acerto revelado nas tarefas defensivas foi rejeitado pela exigência de Alvalade. Rumou, depois, ao Vitória de Guimarães e Sporting de Braga, representando o Sion há duas épocas consecutivas. Tem Carlitos, também ele ex-jogador de um grande de Lisboa, como companheiro de equipa.

Figura internacional

Simão Junior
Clube
Panathinaikos (Grécia)
Nascimento
23.07.1988 (20 anos)
Naturalidade
Moçambique -
Altura: 1,78m
Peso: 78kg

Após ter dado nas vistas no Ferroviário, Simão Junior é, actualmente, reconhecido como um dos maiores valores moçambicanos. Em 2007/08, o conhecido clube grego não hesitou na hora de apostar neste jovem de enormes qualidades. Fala-se que o FC Porto está atento ao desenvolvimento do jogador, o qual define-se como médio defensivo, forte a jogar sem bola, a roubá-la e a fazer a equipa jogar.

Por sua vez, na competição interna o Ferroviário de Maputo sagrou-se campeão nacional de futebol de 2008, ao vencer na última jornada o Costa do Sol por 2-0. Os "locomotivas" terminaram o "Moçambola" com 56 pontos, mais cinco que o Atlético Muçulmano, concorrente directo.

Festival de Cannes premeia filme moçambicano

Para variar, o programa moderado por Hugo Gilberto terminou com uma surpresa: a apresentação da curta-metragem "A Bola", do realizador Orlando Mesquita. O filme moçambicano, produzido pela Ébano Multimédia, recebeu o prémio especial do júri no festival Cannes Júnior e, também, o Prémio Instituto Camões para a melhor curta-metragem de expressão Lusófona. O vídeo encontra-se disponível aqui. Acreditem que são 4:41 minutos bem empregues...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os Senhores da Europa

Dou início a esta rubrica com uma interrogação: quem foi a última equipa a vencer, de forma consecutiva, a Champions League? Bem, a imagem retira o efeito supresa, acabando por dar resposta à questão. Porém, esta tinha de ser formulada. O texto que se apresenta é inteiramente dedicado ao fantástico AC Milan, os Senhores da Europa.

Últimos vinte anos de Champions League

Comecemos com um pouco de história. De facto, a equpa italiana foi a última a conquistar, duas vezes seguidas, o troféu mais apetecido por treinadores, jogadores e adeptos. Vinte anos atrás, corria a época 1988/89, a dupla Gullit e Van Basten cometeu a proeza de despachar o Steaua de Bucareste, contribuindo cada um com a marcação de dois golos. Na temporada imediatamente a seguir, numa final de má memória para o Benfica, oportunidade para Rijkaard mostrar-se decisivo com a obtenção do tento solitário. O AC Milan dominava a Europa e, de então para cá, o "bis" europeu nunca mais voltou a acontecer.

Próximo passo: sugiro que observemos a história dos últimos vinte anos de Champions League:

Época – Vencedor / Vencido – Resultado (após g.p.)

1988/89 – AC Milan / Steaua Bucareste – 4-0
1989/90 – AC Milan / SL Benfica 1-0
1990/91 – Est. Vermelha / O. Marselha 0-0 (5-3)
1991/92 – Barcelona / Sampdória 1-0
1992/93 – Ol. Marselha / AC Milan 1-0
1993/94 – AC Milan / Barcelona 4-0
1994/95 – Ajax / AC Milan 1-0
1995/96 – Juventus / Ajax 1-1 (4-2)
1996/97 – Bor. Dortmund / Juventus (3-1)
1997/98 – Real Madrid / Juventus 1-0
1998/99 – Man Utd / Bayern Munique 2-1
1999/00 – Real Madrid / Valência 3-0
2000/01 – Bayern Munique / Valência 0-0 (5-4)
2001/02 – Real Madrid / Bayer Leverkusen 2-1
2002/03 – AC Milan / Juventus 0-0 (3-2)
2003/04 – FC Porto / Mónaco 3-0
2004/05 – Liverpool / AC Milan 3-3 (3-2)
2005/06 – Barcelona / Arsenal 2-1
2006/07 – AC Milan / Liverpool 2-1
2007/08 – Man Utd / Chelsea 1-1 (6-5)

Champions League: pódio de vencedores

Real Madrid = 9
1955/56; 1956/57; 1957/58; 1958/59; 1959/60; 1965/66; 1998/98; 1999/00 e 2001/02

AC Milan = 7
1962/63; 1968/69; 1988/89; 1989/90; 1993/94; 2002/03 e 2006/07

Liverpool = 5
1976/77; 1977/78; 1980/81; 1983/84 e 2004/05

Cronologicamente, remetendo-me ao essencial, nota-se uma clara separação geracional entre os clubes incluídos no pódio. A ideia central poderia ser descrita do seguinte modo:
1. As conquistas europeias do Real Madrid, entre 1955 e 1960, marcaram o conceito futebolístico do meu Avô. Personagens como Gento, Puskas e Di Stéfano fazem parte do seu imaginário, incluídos na chamada hegemonia branca.
2 . Em situação idêntica, nas décadas de 70 e 80, foi a vez do meu Pai ser fortemente influenciado pelo domínio dos Red’s de Anfield.
3. Anos mais tarde, chegou a minha vez de ficar rendido ao poderio assombrosso da santíssima trindade, composta pelos conhecidos holandeses do AC Milan daquele tempo.

Os Senhores da Europa

A partida frente ao Steaua de Bucareste, disputada a 14 de Maio de 1989, marca o início do namoro italiano. Quando me lembro dessa final, só posso concluir que o vencedor era mais do que uma boa equipa. Era uma máquina de jogar futebol. A começar pela zona pressionante, implementada por Arrigo Sacchi e depois aprimorada por Fabio Capello. Quando me deparo com qualquer tentativa de comparação táctica, e estratégica, só consigo pensar tratar-se de uma anedota. De mau gosto.

Evidentemente, uma equipa deste nível teria que ser preenchida com valores individuais de topo. E que valores, caros leitores. Atente-se no onze titular dessa final: Galli, Tassoti, Costacurta, Baresi, Maldini, Rijkaard, Donadoni, Ancelotti, Colombo, Gullit e Van Basten. Curiosamente, o AC Milan recente ainda apresenta algumas semelhanças com aquela equipa do passado: (i) uma defesa experiente e sólida, repleta de jogadores italianos, autênticas bandeiras do clube (antes, Tassoti, Baresi e Costacurta; depois, Maldini e Nesta); (ii) um meio-campo assente num misto de intensa capacidade de pressão e imensa qualidade técnica (antes, Rijkaard e Ancelotti; depois, Seedorf e Pirlo); e, (iii) um ataque repleto de jogadores fantásticos, dos melhores do mundo na sua posição (antes, Gullit e Van Basten; depois Kaká, por exemplo).

Hora de terminar. Reconheço que dou particular atenção à história. Os museus explicam, em grande parte, muito daquilo que os clubes representam no presente. Contudo, tendo nascido em 1975, a minha admiração e respeito encontra-se direccionada para Milão. O contrário é que seria de espantar. Nos últimos vinte anos, 8 finais europeias e 5 troféus conquistados chegam e sobram para definir a minha concepção de futebol. Ponto final.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A mística perdida do Sport Lisboa e Benfica

Caros leitores: podem considerar que o 'timing' deste artigo não é o mais adequado. Principalmente depois de ultrapassado o descalabro da Trofa, mercê das vitórias frente a Sp. Braga, para a Liga Sagres, Olhanense, para a Carslberg Cup e após a visita de 'Deus' Maradona ao palco da Luz. Provavelmente, têm razão. Acontece que já há uns dias vinha pensando no tema que dá nome ao título. Como é hábito, as minhas apreciações acerca do universo encarnado não se encontram condicionadas por resultados positivos ou negativos, nem pretende ser um espelho diário da imprensa desportiva.

mística s.f.,
estudo das coisas divinas ou espirituais;
vida contemplativa;
por ext. fanatismo doutrinário.

A natureza da palavra

Ao contrário do termo que aparece no dicionário, quando o assunto é futebol a mística assume um carácter intangível, praticamente inexplicável. Então quando esta diz respeito ao Benfica, o tema assume enormes proporções, com debates sem fim à vista. Muitos, afirmam que as vitórias representam um sinónimo perfeito para a mística. Alguns, preferem falar de amor à camisola. Vários sentem-na, mas é díficil encontrar o significado certo para a palavra. Porque esta é geracional e substancialmente diferente entre um grupo alargado de indivíduos. Dirigentes, treinadores, jogadores, inclusive adeptos, podem ser portadores da mística e, ao contrário do bilhete de identidade, ela é pessoal e transmissível.

Juízo pessoal

Para melhor conhecer e compreender como se construíu a mística do Benfica, aconselharia a leitura do livro 'Pela Mística Dentro'. Porém, num acto irreflectido e arriscado, gostaria de transmitir a minha visão sobre o assunto. É mais difícil do que possa parecer, mas não custa tentar.

Em primeiro lugar, é verdade que a mística ganha asas no momento das maiores celebrações. Nada a opor. Contudo, na época 1965/66, o título nacional foi conquistado pelo Sporting. Será que o plantel do Benfica, nessa temporada, não continha em si a tão famosa mística? Sem hesitar, não me parece. Sendo certo que as vitórias alimentam a lenda, falta algo mais que complete a fórmula mágica.

No meu entender (enchendo o peito de ar), mística é compromisso, identidade e lealdade. Compromisso com uma causa, entendida enquanto dedicação ao emblema, privilegiando um espírito de sacríficio que leve às vitórias. Identidade com as raízes do clube, conhecendo a sua história e respeitando os seus protagonistas. Lealdade com um símbolo, defendendo com prazer e orgulho a camisola que dá cor a uma nação.

Actualmente, não será descabido afirmar que a mística encontra-se depositada em Rui Costa. O director desportivo preenche os requisitos enunciados, sendo das poucas vozes da estrutura encarnada que todos fazem questão de escutar. Indubitavelmente, o seu percurso fala por si: inicialmente como atleta dos escalões jovens, apanha-bolas, jogador profissional da primeira equipa, a saída para o estrangeiro, entre lágrimas, o regresso sentimental do filho pródigo e, mais tarde, o pendurar das botas e a missão de fato e gravata. A mística é isto.

1. Exemplo de Estugarda (1988)

E quanto à realidade presente? Que dizer dos jogadores que constituem o plantel às ordens de Quique Flores? Já lá iremos. Por agora, façamos uma viagem, no passado. Em 25 de Maio de 1988, o Benfica atingiu a final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, marcada pelo dramatismo do penalty falhado por Veloso, na altura capitão encarnado. A escolha deste facto tem uma explicação lógica: como não vivi a glória da década de 60 e era muito novo aquando da final da Taça Uefa, frente ao Anderlecht, a caminhada europeia desse ano marcou a minha forma de olhar para o Benfica. Tinha 13 anos e, apesar da tristeza associada à derrota, pude constantar que compromisso, identidade e lealdade não eram palavras vãs. No fundo, a imagem que guardo desses tempos é só uma: mística.

A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, Veloso, Dito, Mozer e Álvaro; Chiquinho, Elzo, Shéu e Pacheco; Mats Magnusson e Rui Águas.

Para não variar, apresento mais um exercício que consiste em identificar, para cada jogador presente na final de 1988, quantas épocas consecutivas levavam de águia ao peito. Exemplo: à data, o guarda-redes Silvino cumpria o segundo ano consecutivo ao serviço do Benfica. No fim, o valor total resume a soma das épocas de todos os jogadores.

Silvino (2.ª época)
Veloso (8.ª)
Dito (2.ª)
Mozer (1.ª)
Álvaro (7.ª)
Chiquinho (2.ª)
Elzo (1.ª)
Shéu (16.ª)
Pacheco (1.ª)
Mats Magnusson (1.ª)
Rui Águas (3.ª)

Total = 44 épocas

Podem os jogadores estrangeiros compreender a mística?

A resposta à questão é afirmativa. No entanto, ressalve-se que essa assimilação depende de vários factores: por um lado, a própria personalidade do jogador influencia a absorção de ensinamentos ligados à identidade do clube; por outro lado, a estrutura do departamento de futebol tem enorme responsabilidade em assegurar a transmissão de informação histórica e os colegas de equipa com mais anos de casa devem assumir-se como veículos condutores da velha mística. No caso concreto da equipa titular na final de Estugarda, o brasileiro Mozer e o sueco Magnusson apresentam episódios curiosos. Proponho a leitura dos links disponíveis, comprovando a certeza da resposta dada.

2. Exemplo de Viena (1990)

Dois anos mais tarde, a 23 de Maio de 1990, o Benfica volta a viver a emoção de disputar uma final europeia, desta feita contra o fantástico AC Milan de Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco Van Basten. Lamentavelmente, o resultado (derrota por 1-0) voltou a ser desfavorável à equipa portuguesa. Todavia, a campanha desse ano ficou positivamente marcada pela meia-final diante do Marselha. Ainda hoje, passados quase vinte anos passados, todos se recordam da mão de Vata, num Estádio da Luz a fervilhar de emoção. Um vulcão de mística.

A equipa alinhou da seguinte forma: Silvino, José Carlos, Aldair, Ricardo Gomes e Samuel; Hernâni, Vítor Paneira, Jonas Thern, Valdo e Pacheco; Mats Magnusson.

Silvino (4.ª época)
José Carlos (1.ª)
Aldair (1.ª)
Ricardo Gomes (2.ª)
Samuel (7.ª)
Hernâni (2.ª)
Vítor Paneira (2.ª)
Jonas Thern (1.ª)
Valdo (3.ª)
Pacheco (3.ª)
Mats Magnusson (3.ª)

Total = 29 épocas

A mística enquanto factor X

O que realmente importa e pretendo provar é que a mística daquele tempo não encontra paralelo na conjuntura actual, muito por culpa das constantes entradas e saídas a que os plantéis são sujeitos. Tornou-se prática afirmar: não basta ter jogadores de qualidade para ter uma boa equipa. Eu iria mais longe: uma boa equipa pode basear-se num conjunto de jogadores acima da média, mas sem esquecer todos aqueles que amam a camisola que envergam. E, na minha opinião, quanto mais anos um jogador estiver no clube, mais facilmente compreenderá o verdadeiro significado do que a mística representa. Na maioria das vezes, acaba por representar a diferença ténue entre o êxito e o fracasso. O tal factor X. Embora, nos dias de hoje, seja comum falar-se em atitude.

Cenário presente

De regresso ao momento actual, procurei seleccionar um onze tipo ideal e, tal como feito anteriormente, desenvolver o mesmo tipo de exercício com os parâmetros previamente definidos.

Moreira (9.ª época)
Maxi Pereira (2.ª)
Luisão (6.ª)
Miguel Vítor (1.ª)
David Luiz (3.ª)
Ruben Amorim (1.ª)
Katsouranis (3.ª)
Hassan Yebda (1.ª)
José Antonio Reyes (1.ª)
Pablo Aimar (1.ª)
David Suazo (1.ª)

Total = 29 épocas

Comparativamente com a saudosa equipa da final de Viena, resulta interessante verificar a igualdade no número total de épocas. A diferença está no seguinte: no onze titular da década anterior destaca-se uma maior homogeneidade entre os seus elementos e preponderância de jogadores portugueses; no plantel actual seis jogadores cumprem a sua primeira época e só Moreira e Luisão perfazem, em conjunto, quinze temporadas ao serviço do clube.

Termino com um desafio: e para si, caro leitor, o que é a mística?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

[Taça da Liga] V. Guimarães 0-2 SL Benfica

Quanto à partida, não me vou alongar demasiado. Foi perceptível a diferença na atitude dos jogadores, para melhor, conjugada com elevados índices de concentração e solidariedade defensiva. É verdade que ajudou o facto do golo ter aparecido cedo. Porém, a equipa teve um comportamento táctico digno de registo e transmitiu, quase sempre, tranquilidade a quem seguia o jogo. Em resumo: a performance colectiva esteve longe de ser brilhante, até porque na 2.ª parte a equipa chegou, praticamente, a abdicar do ataque, mas há que realçar o acerto posicional e a agressividade imposta nas transições defensivas. Ficou patente que, por vezes, mais vale evitar o uso excessivo do futebol directo e, ao invés, privilegiar uma posse de bola segura que permita um maior controlo dos acontecimentos.

Para finalizar, gostaria de dedicar este parágrafo a Miguel Vítor. Curiosamente, o jovem formado nas escolas do Benfica foi o único jogador português a constar da lista inicial do onze titular. Até Carlos Carvalhal, que comentava as incidências da partida, referiu-se à sua actuação (personalizada) em tom elogioso. Não podia estar mais de acordo. Apesar de um ou outro erro, sem consequências de maior, que bela exibição fez o 'míudo': muito concentrado e determinado, raramente perdeu lances divididos e revelou enorme disponibilidade para "varrer" a sua área de jurisdição. Congratulo-me por verificar que um jogador formado na Luz vai conquistando o seu espaço, ganhando a confiança de colegas, o respeito de adversários e a admiração do mundo do futebol. Embora haja quem pense o contrário, sou da opinião que a construção da mística passa muito pela aposta e crescimento de jogadores umbilicamente ligados ao clube que representam. Para os mais puristas, em questão de números, vale a pena observar a sua estatística pessoal, referente à época em curso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

[Liga Sagres 13.ª J] Trofense 2-0 SL Benfica

Quatro dias após a passagem de ano, a primeira desilusão de 2009 teve origem num pequeno município situado no extremo norte do distrito do Porto. Como seria de esperar, a derrota frente ao Trofense fez (e continua a fazer) correr muita tinta. Infelizmente, não tenho o poder de explicar este último desaire, nem a fórmula mágica capaz de apontar soluções para os problemas mais prementes. Ainda assim, de modo a evitar a repetição ad eternum dos mesmos argumentos, sugiro a leitura de alguns posts que traduzem a minha visão do mundo encarnado. Sem querer ser pretencioso, nas entrelinhas podem-se encontrar ligeiros "gritos de alerta": a política desportiva de aposta na formação, a limpeza de balneário, o sistema táctico e os princípios de jogo de Quique Flores e, também, o ADN de um clube histórico.

Agora, oportunidade para um exercício de memória interessante: comparar a actual equipa com aquela que conquistou o título nacional em 2004/05. Para além das naturais diferenças na estrutura de futebol, equipa técnica incluída, importa distinguir certas particularidades em termos de plantel:

- Época 2004/05
Dezassete jogadores portugueses (50% do plantel)
Nove nacionalidades distintas
Numa equipa liderada pela "raposa" Trapattoni, espremida ao máximo, o onze normalmente titular contemplava oito atletas portugueses: Quim, Miguel, Ricardo Rocha, Petit, Manuel Fernandes, Nuno Assis, Simão e Nuno Gomes.

- Época 2008/09
Oito jogadores portugueses (29,6% do plantel)
Treze nacionalidades diferentes
Numa equipa comandada por Quique Flores, o onze que costuma entrar em campo raramente contempla mais do que quatro portugueses e, para a maioria, trata-se do primeiro ano a jogar na Luz.

Se pretendesse ser mais pormenorizado, poderia acrescentar mais dados à discussão. Todavia, bastam algumas linhas para provar o que pretendo.
Na temporada 2004/05 a equipa ostentava a conquista da Taça de Portugal, na época imediatamente anterior, com um núcleo duro de jogadores que vinham a ser moldados há dois ou três anos. Tratava-se de um plantel em fase de maturação competitiva que, sem cativar em termos exibicionais, mostrava-se no ponto crítico de estabilidade para finalmente vencer a principal competição nacional. Apesar das críticas, era uma equipa segura e talhada para vencer. Na altura, Simão assumia um protagonismo e brilhantismo imcomparável com os dias de hoje.
Na presente temporada, numa equipa praticamente renovada de alto a baixo, poucos podem orgulhar-se de terem sido campeões de águia ao peito. Não existe dinâmica de vitória porque, pura e simplesmente, estes jogadores não têm o hábito de vencer. Trata-se, assim, de um plantel em fase quase embrionária, a necessitar de crescimento rápido, com bons valores individuais, mas que denota imensas dificuldades colectivas em perceber a pressão dos adeptos e lidar com o "ruído" que sempre aparece do exterior. Essencialmente, para muitos deles, falta personalidade que encaixe na grandiosidade do clube, notando-se claramente a carência de mística.

Bem, chegados a este ponto, importa colocar uma questão. Deverá Rui Costa, em conjunto com a Direcção da SAD, optar pela destituição do treinador espanhol, proceder a novas entradas e saídas no mercado de Inverno e, inclusive, efectuar a milionésima revolução do futebol encarnado? Sem hesitações, respondo: Não! De todo! Mesmo que, logo à noite, António-Pedro Vasconcelos diga o contrário.