quinta-feira, 19 de março de 2009

Resposta de António-Pedro Vasconcelos

Como resultado do meu contacto para o programa 'Trio D'Ataque', o conhecido cineasta, produtor, argumentista, colunista, professor, entre o desempenho de outras actividades de cariz cultural, respondeu à minha interpelação de terça-feira à noite. Sinceramente, nunca esperei que a minha reflexão escrita produzisse efeitos palpáveis. Todavia, hoje de manhã, ao chegar ao emprego, fiquei deveras surpreendido quando abri o endereço de correio electrónico.
Exige o meu bom senso que afirme o seguinte: apesar do artigo anterior deixar implícito um tom mais crítico, nada me move contra António-Pedro Vasconcelos. Trata-se de uma pessoa respeitável, com gostos que partilho (livros e vinhos, por exemplo) e com uma postura humana e social que não me atrevo sequer a contestar. Provavelmente pelo facto de dar manifesta importância aos aspectos positivos da sua personalidade é que me sinto 'ferido' pela prática da crítica constante e exacerbada, não dando o benefício da dúvida ao projecto encetado por Rui Costa. Já quanto ao desempenho do presidente, parece-me que estamos em clara sintonia.
Sendo assim, espero que o visado no título desta entrada não se importe que disponibilize publicamente a sua resposta. Penso que não cumpre requisitos de confidencialidade e só vem corroborar a opinião transmitida diversas vezes no programa 'Trio D'Ataque'. Contudo, caso o solicite, não hesitarei em retirar o texto que se segue:

"Caro amigo e consócio.
Também concordo consigo sobre a necessidade de estabilidade no Benfica, mas isso não pode ser pretexto para perpetuar a asneira e o desperdício. Ao dispensar Fernando Santos, à primeira jornada, ele que tinha feito uma época extraordinária para os jogadores de que dispunha, a quem foram tirados trunfos essenciais (Simão, Miccoli, Karagounis, Manuel Fernandes) em plena preparação, que pôs o Benfica, finalmente, a jogar num modelo de jogo ganhador; e ao portar-se de maneira indigna com Veiga, que revelou ser um director desportivo com espírito ganhador e um grande benfiquista, ao contrário do Presidente que nunca na vida foi benfiquista, foi Vieira quem criou instabilidade: O Benfica, com Veiga e Trapatoni e sem equipa, tinha ganho um campeonato, com Veiga e Koeman (um péssimo treinador, que desprezou o campeonato para se concentrar na Champions, que lhe dava maior visibilidade), fomos aos quartos de final da Champions, com Veiga e Santos e sem jogadores, disputámos o campeonato até à última jornada e fomos aos quartos de final da UEFA, sem Luisão e sem Simão. Daí em diante tem sido o descalabro. O que vamos fazer? Em nome da estabilidade deixar que se delapide financeiramente o clube e que o Glorioso se afunde num pântano de derrotas humilhantes e num ciclo de decadência irreparável? Não. É preciso dispensar o Quique com justa causa, exigir eleições antecipadas para que a nova época, para quem ganhar em Outubro, não esteja comprometida por esta direcção, esperar que apareçam benfiquistas sérios, competentes e que não se sirvam do clube para se promover. Se for o Vieira, que os benfiqusitas não lhe deêm um novo cheque em branco, obrigando-o desta vez a fazer as escolhas certas para o clube e para a SAD, para o futebol e para as outras modalidades.
Saudações benfiquistas,
A-PV"

quarta-feira, 18 de março de 2009

Aos benfiquistas...

Escassez de tempo. Não confundir com ausência de motivação, após a derrota caseira frente ao Vitória. Ao menos, o distanciamento destes últimos dias serviu para acompanhar o crescimento do tom crítico e para que os habituais 'profetas' da desgraça viessem vociferar a sua razão. Assumo, desde já, a minha discordância face aos argumentos utilizados por vários 'notáveis'. Exemplo claro passou-se no Trio D’Ataque quando a moderação teve a amabilidade de ler um email, por mim enviado, o qual resume a minha opinião e que faço questão de transcrever:

Exmos. Senhores,

Chamo-me Ricardo Gil Cunha, tenho trinta e quatro anos e escrevo desde Lisboa. Aproveito para cumprimentar o painel habitual e felicitar a moderação pela qualidade do programa.

Sou o sócio n.º 25.998 do Sport Lisboa e Benfica e discordo do tom crítico do meu consócio António-Pedro Vasconcelos, apesar de respeitar a opinião de alguém com tantos anos de mística. Relativamente à situação actual do nosso emblema, especialmente quanto ao desempenho de Quique Flores, é certo que a estabilidade e prudência não devem obstar a um sentimento de ambição e exigência. Também não me conformo com a falta de títulos! Todavia, sou avesso a constantes revoluções e um ciclo de dois anos deve ser a regra para se avaliar um projecto sustentado à volta de um director desportivo, treinador e respectiva equipa de futebol.

Antecipadamente grato pela atenção, despeço-me com os melhores cumprimentos.

Ricardo Gil Cunha


Em primeiro lugar, convém afirmar que nem sempre concordo com as opções de Quique Flores e, por diversas vezes, critiquei a forma como o treinador espanhol efectua a abordagem estratégica de determinadas partidas. No entanto, ao contrário daqueles que exasperaram com a substituição de Cardozo por Nuno Gomes rejeito os assobios associados à escolha.
Embora uma franja considerável de adeptos suspire pela coexistência de dois avançados, tal não representa condição essencial para a prática de bom futebol e consequente marcação de golos. O quarteto mais recuado do Vitória estava a actuar num bloco baixo, com o ponta-de-lança paraguaio 'enjaulado' entre os centrais, sendo imperioso alterar a dinâmica de movimentos e descobrir outros canais de penetração, de forma a brindar o adversário com novos desafios posicionais. Com a manutenção do duplo pivot, no centro do terreno, a equipa podia: (i) adiantar a linha defensiva; (ii) soltar os laterais para acções atacantes; (iii) recuperar a bola mais facilmente, aguentando a sua posse; e, (iv) potenciar a mobilidade e capacidade de improviso dos homens da frente.
Nem sempre maior presença física na área contrária é sinónimo de mais e melhores oportunidades de golo. De que servem dois avançados, quando a linha defensiva demonstra incapacidade para ultrapassar a linha de meio-campo e lentidão para recuperar, ao mesmo tempo que a equipa revela dificuldades acrescidas para contornar a superioridade numérica do oponente na zona nevrálgica do terreno?
Há exemplos que explicam esta posição: lembro que Ibrahimovic é uma 'ilha' no meio de defesas italianos, o Liverpool tem o hábito de jogar em 4x5x1, com Torres sozinho na frente e também Ferguson já experimentou a mesma fórmula, isolando Berbatov e deixando Rooney no banco. Sem deixar o tema de lado, a propósito da final da Taça Carlsberg, António-Pedro Vasconcelos avançou com o seguinte onze: Quim, Maxi, Luisão, Sidnei, David Luiz (Jorge Ribeiro?), Katsouranis, Reyes (esquerda), Aimar (centro), Suazo (direita), Nuno Gomes e Cardozo. Agradeço que alguém me explique onde está o equilíbrio de uma equipa quando cinco jogadores apresentam, claramente, características ofensivas? Lamento dizer isto, mas grande parte do 3.º anel não prima pelo acerto táctico. A forma de ver futebol ficou parada na década de 60. Infelizmente, para todos nós, Eusébio já não pisa os relvados nacionais.

Quanto ao debate sobre a continuidade de Quique Flores, gostaria de tecer algumas considerações. Vou tentar ser breve, para não repetir-me e maçar os leitores. A derrota frente ao Vitória não alterou, substancialmente, a minha apreciação sobre a competência técnica do treinador encarnado. Para os mais desconhecedores, sugiro a leitura de vários artigos que fui escrevendo ao longo da época. Podem ser encontrados na barra lateral direita.
Por razões anteriomente discutidas, fui bastante crítico da política desportiva seguida por Filipe Vieira, mas retenho confiança infinita na aptidão e orientação de Rui Costa. Do passado recente, podemos retirar importantes ensinamentos: o jejum de títulos não se resolve com tomadas de posição precipitadas. Por outras palavras, insistir num ciclo de 'revoluções' baseadas na rotatividade anual de uma equipa técnica, com as consequentes entradas e saídas de jogadores, não parece ser uma solução que traga resultados.
Assim, esperemos pelo final da época para retirarmos as devidas ilações. Salvo situações especiais, de natureza pessoal e profissional, ou perante um evidente insucesso face aos objectivos iniciais, dou clara preferência à continuidade de Quique Flores. Conto com a máxima ponderação, por parte da Direcção da SAD. Por muito que custe a António-Pedro Vasconcelos, não creio que Fernando Santos mereça uma segunda oportunidade. Lamento que deixe de ir à Luz ver o seu (nosso) Benfica, colocando em causa, inclusive, a interrupção do pagamento de cinco quotas. Infelizmente, seguindo o mesmo discurso lamurioso, também me posso queixar da 'pseudo' representação do clube nos principais programas televisivos sobre futebol.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Aos sportinguistas...

O meu Avô era um sportinguista fervoroso. Há não muito tempo dediquei-lhe umas linhas, quando escrevi sobre a inaguração do Estádio Nacional. Tenho o bilhete desse dia memorável, oferecido pelo meu Avô, o qual guardo com enorme carinho. Lembro-me, ainda miúdo, vê-lo sair de casa, depois do almoço domingueiro, para ir ver o seu Sporting, clube do qual foi sócio durante muitos anos. Um dia, estava num restaurante com os meus pais e avós, ali na zona de Alvalade, quando entra uma figura desconhecida aos meus olhos: José Travassos. O meu Avô conhecia-o bem, tendo trocado cumprimentos efusivos. Perguntei quem era e, logo ali, fui brindado com uma lição sobre a reputação de antigos jogadores leoninos. Infelizmente, para o meu Avô, a minha preferência clubística voltou-se para uma cor mais sanguínea, mas sempre vi o Sporting como o grande rival do meu clube.

Os tempos passaram e hoje, depois da pior eliminatória da história europeia do futebol português, dei comigo a pensar no que o meu Avô sentiria, caso tivesse presenciado a vergonha de ontem à noite. Também não pude deixar de pensar num amigo que foi para Munique, mais para divertir-se do que propriamente para cantar por uma reviravolta impossível. Chegámos a trocar duas ou três sms’s e, numa delas, li o seguinte: "...sonhei que ganhávamos 7-1. Estive, de manhã, no Allianz Arena. É esmagador". Ora aqui está um adjectivo de cariz profético. Ainda não voltei a falar com ele, mas imagino, não sem com alguma dificuldade, os sentimentos por que passou. Como recuperar a honra, quando esta ficou perdida na noite de Munique?

É sobre o Sporting que quero falar. Sem hipocrisia. Sem ironia ou ponta de sarcasmo. Gostava que muitos sportinguistas lessem as minhas palavras como as de alguém que observa o 'fenómeno' de forma distante e objectiva. Recuemos uns anos. Até meados da década de noventa, a minha adolescência foi acompanhada pela rivalidade entre os dois 'grandes' de Lisboa. Nos anos sessenta, Eusébio desequilibrou os pratos da balança, mas o Sporting nunca deixou de conquistar troféus, mantendo-se na 'sombra' do vizinho de Benfica. Até que o FC Porto desatou a conquistar títulos, uns a seguir aos outros, como se estivesse a sprintar numa prova de 100 metros. Quando as borbulhas desapareceram, dando lugar aos bancos da Faculdade, a hegemonia do futebol português já ia percorrendo a A1, no sentido norte. Em grande velocidade: ao mesmo tempo que o Sporting esteve durante longos dezoito anos sem conquistar o campeonato nacional, o FC Porto foi coleccionando Ligas, Taças de Portugal, Supertaças. A um ritmo avassalador. A separação de poderes ganhou sotaque tripeiro, o Benfica ganhou um rival que apresentava desafios de outra estirpe e o Sporting viu-se relegado para terceiro lugar. Sim, leram bem. Contem só a totalidade dos títulos nacionais, para verificarem que há muito o FC Porto superou o Sporting. Nesse momento, a 'batalha' pela liderança do futebol português mudou de cores. Apesar de muitos sportinguistas continuarem a olhar para o rival encarnado, deviam pensar que a primeira tarefa cinge-se a apagar a 'chama do dragão'. De forma muito frontal: o vosso rival não mora na Luz; antes está sentado ao lado do vosso presidente.

Nos meus tempos de juventude, passados em imensas tertúlias com amigos dos mais variados quadrantes futebolísticos, surgiu um novo conceito nacional: o denominado 'projecto' de José Roquette. Os adeptos leoninos passaram a falar menos das incidências do relvado e introduziram, nos debates, a figura dos relatórios & contas. Orgulhosamente ‘diferentes’, a estabilidade financeira e a aposta na formação passaram a ser bandeiras de um novo discurso. O campeonato ganho por Augusto Inácio matou a 'fome' de títulos e, mais tarde, a dobradinha de Lazlo Boloni foi o culminar de um 'projecto' orientado para a sustentabilidade. Todavia, a tónica nos predicados financeiros fez desviar as atenções do objectivo principal – sucesso desportivo. O rigor e transparência das contas foi ganhando relevo, ao mesmo tempo que a impaciência dos adeptos foi subindo de tom: a tão chamada 'crise de militância'. Presentemente, dos três 'grandes', o Sporting é claramente o clube mais preparado para o futuro de curto e médio/longo prazo, quer em termos económico-financeiros, quer na vertente dedicada à formação. No entanto, qual o preço a pagar? Relembro que a conquista do último campeonato vem da longíqua época 2001/02...

Ontem, como sempre, estive atento ao programa "Trio D’Ataque". Confesso que me causa estranheza ouvir o Rui Oliveira e Costa afirmar a sua preferência por dois segundos lugares, ao invés de um primeiro e outro terceiro. Na razão das suas palavras, encontram-se, tão só, argumentos económicos motivados pela presença na milionária 'champions league'. O meu Avô nunca proferiria tal barbaridade. Não deixo de valorizar as preocupações financeiras, mas os adeptos apaixonados só pensam numa coisa: vitórias. Creio ser possível manter o interesse por essas matérias, respeitando os condicionalismos que se impõem à maioria dos clubes nacionais, embora nunca deixando de perseguir os êxitos desportivos. Se o Sporting respeita o seu passado, baseado numa história de esforço, dedicação, devoção e glória, não pode permitir que a alegria de um resultado líquido positivo se supere à emoção de um título. Após uma derrota que mancha o nome do clube na Europa e quando se vive um processo pré-eleitoral, seria boa ideia pensarem no rumo que pretendem. Amigos sportinguistas, digam o que desejam. Sinceramente. Uma liderança alicerçada num modelo de gestão vocacionado para as demonstrações financeiras? Ou, pelo contrário, uma estrutura que, sem deixar de ser pragmática e realista, defenda o símbolo do clube? Querem um candidato 'ajoelhado' às vicissitudes das garantias bancárias e dependente da vontade dos investidores? Ou anseiam por uma candidatura forte, que faça o Sporting regressar ao topo do futebol nacional? Eu sei bem o que o meu Avô desejaria. Sei, também, aquilo que muitos de vocês ambicionam: voltarem a sentarem-se, ao meu lado, na cadeira do poder, contemplando a eterna rivalidade pintada a verde e vermelho.

terça-feira, 3 de março de 2009

Os debates televisivos sobre futebol

O futebol é, sem sombra de dúvida, um fenómeno que arrasta multidões e movimenta milhões. A dimensão económica e social da competição, como espectáculo desportivo à escala nacional ou internacional, produz elevado interesse mediático. Não é de estranhar, portanto, o enorme acompanhamento por parte da televisão, traduzido na proliferação de vários programas de debate. Em resumo:

Segunda-feira
SIC Notícias: "O Dia Seguinte", com Dias Ferreira, Guilherme Aguiar e Silvio Cervan
TVI 24: "Prolongamento", com Eduardo Barroso, Pôncio Monteiro e Fernando Seara

Terça-feira
RTPn: "Trio D'Ataque", com Rui Oliveira e Costa, Rui Moreira e António-Pedro Vasconcelos

Quinta-feira
RTPn: "Pontapé de Saída", com Camilo Lourenço, Luís Freitas Lobo, João Pinto e convidado especial

Domingo
SIC Notícias: "Tempo Extra", com Rui Santos

Por motivos óbvios, a programação da Sport TV não foi considerada visto tratar-se de um canal temático. De qualquer forma, sempre que a oportunidade valha a pena, o tópico poderá ser actualizado.

"Tempo Extra"
Estamos perante o típico programa One Man Show. O comentador desportivo Rui Santos faz de tudo um pouco - questiona, reflecte, responde a preceito e apresenta sugestões futuras! Caso para enunciar a velha máxima: 'faz a festa, atira os foguetes e apanha as canas'. O mundo do espectáculo assenta-lhe bem. A combinação entre as gravatas de pura seda e a luz dos holofotes, resulta numa mistura explosiva. Porém, a sua missão não se esgota no poder da imagem. A 'cruzada' pela verdade desportiva, leia-se aplicação de meios tecnológicos no futebol, é um ponto a seu favor. Fora essa virtude, o protagonista perde-se em delírios intelectuais. Os seus elaborados desenhos tácticos e a frase "ai ai ai ai ai ai mas que raio de Democracia é esta?" já fazem parte dos manuais escolares. Extra-curricular: serviu como modelo de inspiração na criação de sketches. Está tudo dito.

"Pontapé de Saída"
Na televisão, é o melhor espaço de informação sobre futebol. Aqui, a palavra certa é mesmo essa: futebol! A qualidade do painel residente é acima de qualquer suspeita e o convidado especial é sempre algum treinador ou ex-jogador que acrescenta um toque particular de experiência. Único aspecto negativo: o programa começa às 23h00 e só tem uma 1 hora de emissão. Merecia muito mais tempo de antena. Faça chuva ou faça sol, quintas à noite estou sintonizado na RTPn.

"Trio D’ Ataque"
Não atinge a excelência do "Pontapé de Saída", mas entre o conjunto de debates televisivos, onde estão incluídos os representantes dos três 'grandes' é, claramente, o superior. Costuma oscilar entre o muito bom e o razoável. O nível diminui consideravelmente quando o tema da arbitragem prevalece sobre os demais. Nessas alturas, o argumento 'Calabote' transforma Rui Moreira num ser insuportável e, da parte do representante encarnado, nota-se ligeiro desconforto em rebater o que denomino de 'verdades deturpadas' da história do Benfica. Contudo, fora esse tom mais acalorado, a discussão segue o bom ritmo imposto pela moderação. Depois, as diferentes rubricas oferecem um 'colorido' descontraído e a postura dos intervenientes deve ser elogiada. Na globalidade, tem nota extremamente positiva.

"O Dia Seguinte"
Uma autêntica aula de direito desportivo. Os conhecimentos de Guilherme Aguiar impressionam, nomeadamente quando refere, de cor e salteado, o Art. 28.º, n.º 2, alínea f) do Regulamento Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Um Tratado. Pela voz destes homens, a doutrina futebolística, entendida enquanto o conjunto de princípios básicos, fundamentais, de um sistema, alcança a estratosfera da sabedoria. Pena que o aborrecimento provocado atinja a velocidade warp. Para acompanhar a dissertação de tanta legislação, aconselho terem sempre por perto um caderninho de apontamentos. Um Moleskine é o ideal. Para piorar, qualquer lance da jornada, de carácter mais duvidoso, é discutido até à exaustão, funcionando o programa como um dos melhores soporíferos à venda no mercado. Em suma, não recomendado a mentes mais sensíveis, mas cientificamente aconselhado a quem sofre de insónias.

"Prolongamento"
Guardei esta 'pérola' para o final. Ponto prévio: estreou ontem, mas podia acabar amanhã. A maioria nem dava pelo súbito desaparecimento. A expectativa era enorme, principalmente após a contratação do 'fenómeno' Fernando Seara à concorrência. Bem, tive o desprazer de acompanhar o programa durante breves 10 minutos e duas ilações foram retiradas. Em primeiro lugar, o moderador Sousa Martins parece um daqueles professores simpáticos, embora completamente perdido naquele recreio folião. Um local sem lei nem ordem. Em segundo lugar, o tom jocoso, quase no limiar da galhofa, faz esquecer que aquele cenário diz respeito a um estúdio da televisão: Pôncio Monteiro parece mais um comediante, talvez a procurar atenção para uma carreira de stand-up; Fernando Seara, por seu lado, só não bate palmas, mas solta gargalhadas como se estivesse num jantar, entre amigos, a contar anedotas. Termino com um pedido, encarecido, à FIFA - se o jogo terminar empatado no final do tempo regulamentar, que tal deixar o "prolongamento" de lado e proceder-se, imediatamente, à marcação de pontapés da marca de grande penalidade? O público agradece!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mas, afinal o que é o 'Twitter'?

'Twitter'? Já tinha ouvido falar e li qualquer coisa sobre o assunto. A primeira impressão foi de indiferença e não prestei demasiada atenção. Até ao dia em que a curiosidade foi mais forte, acedi ao 'Twitter'.com e criei um novo registo. Mas, afinal o que é o Twitter?

O 'Twitter' pode ser definido como sendo uma rede social de microblogging que permite aos seus utilizadores enviar actualizações pessoais, contendo apenas texto num máximo de 140 caracteres através do site oficial, SMS, email, mensagens instantâneas ou através de um aplicativo independente para o Sistema Operativo. O 'Twitter' pode ser utilizado para partilha de acções com todos os utilizadores que o tenham nos seus contactos e sigam (follow) as suas actividades. Em termos gerais, é isto.

Um dos primeiros 'Twitters' em que cliquei follow deve ter sido o de António Boronha, homem do futebol, com um passado recheado de estórias e conhecido blogger, com uma presença muito activa. A lista relativa aos utilizadores following já era extensa e uma coisa leva à outra: comecei a adicionar um, dois, três e, neste momento, sigo trinta e dois 'Twitters'. A tal rede social.

Quem faz parte, então, da lista de contactos do Catenaccio? Alguns colegas de blogosfera, jornalistas e outras figuras conhecidas da maioria do público.
No primeiro lote, posso destacar o Pedro Varela, do blogue Pontapé na Lógica, o João Gonçalves, do Encarnado e Branco e o Paulo Santos, autor do Apenas Futebol. Há mais uns quantos, a juntar à lista.
Jornalistas? Vários e, alguns, bem participativos. A provar que o 'Twitter' é uma das novas modas da internet. Incluídos na minha rede, enuncio: António Tadeia, José Carlos Soares e Nuno Luz.
Também Hermínio Loureiro rendeu-se às novas tecnologias e, por fim, há malta ligada às Produções Fícticias, Bruno Nogueira, José de Pina e Nuno Markl, assim como uma imensidão de orgãos de comunicação social. E o leitor, quando começa a 'twittar'?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

[Liga Sagres 19.ª J] Sporting CP 3-2 SL Benfica

Desânimo. Resignação. Tristeza. Sentimentos comuns à generalidade dos adeptos encarnados, após o apito final no derby de Lisboa. Tal como escrevi, o Benfica não fez tudo para não perder e o Sporting fez o suficiente para ganhar. Razões - para a derrota ou para a vitória, dependendo da perspectiva - serão algumas. Na óptica benfiquista, temos duas alternativas de análise: ou optamos pela via da superficialidade, enumerando a quantidade de erros individuais verificados ou, em sentido oposto, procuramos encontrar um motivo superior, centrado na variante táctica e orientado para as questões de âmbito estratégico.

Para os sportinguistas, poderá ser fácil explicar a vitória: jogaram melhor na 2.ª parte e os jogadores da frente mostraram um elevado índice de finalização. Posso concordar. Mas, a razão de uns não implica, necessariamente, a justificação de outros. Em primeiro lugar, o Benfica perdeu porque cada jogador, envolvido na sua zona de jurisdição, raramente conseguiu suplantar-se ao seu adversário directo. Os duelos individuais tiveram influência no desfecho e o colectivo não conseguiu disfarçar essa insuficiência. Em segundo lugar, o Benfica não venceu porque Quique Flores persiste no equívoco de abordar partidas diferentes, noutros ambientes e perante desafios distintos, através de um plano estratégico demasiado rígido para as naturais ambições do clube.

Sem menosprezar um aspecto, em detrimento de outro, prefiro deixar de lado o negativismo facilmente identificável com algumas performances individuais, centrando a minha atenção em questões de âmbito colectivo. Inicialmente, fiquei desconfiado da abordagem pensada pelo treinador espanhol. Apesar da boa exibição rubricada no 'dragão', a estratégia nunca poderia ser idêntica. Em matéria de posicionamento e dinâmica de movimentação, para não falar de muitos outros tópicos relacionados com o modelo de jogo, o Sporting proporcionava novos enigmas futebolísticos à espera de serem descodificados. Nesta medida, Quique Flores também peca na excessiva predilecção pelo contra-ataque: pressão em largura, com bloco médio-baixo constituído por duas linhas de quatro homens, um engache chamado Aimar e a profundida, em velocidade, transmitida por um hondurenho de jogo vertical. Acontece que o Benfica não é o Valência. Não sempre, mas em determinadas circunstâncias, o modelo de jogo encarnado merecia maior variedade de ingredientes. Com conta peso e medida, o cozinhado final podia ser susceptível de proporcionar um belo prato gourmet.

Desânimo. Resignação. Tristeza. Perfeitamente compreensível. Agora, não é aceitável "deitarmos a toalha ao chão". Jamais. Até porque continuo a manter a esperança de que esta Liga Sagres vai ser comemorada no dia em que recebermos o Belenenses. A toada crítica do parágrafo anterior não passa disso mesmo - uma simples constatação de que algo mais poderia ser feito, mas que não contraria a minha admiração e certeza quanto às competências técnicas de Quique Flores. Mesmo que o título não seja uma realidade, o treinador espanhol reunirá sempre a minha preferência para a época seguinte. Escusado será dizer porquê. Basta aprender com o passado. Assim, a hora não é de culpabilização de "a", "b" ou "c". O momento deve ser de total partilha de esforços, desde o presidente ao roupeiro, passando pelo jogador e terminando no adepto. União, de todos. Enquanto o objectivo principal for possível, a águia não pode parar de voar. Da minha parte, não deixarei de acreditar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar em Alvalade?

No dia 1 de Dezembro de 1907, no Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting defrontaram-se para o Campeonato de Lisboa. Ninguém poderia adivinhar que seria um dia para a memória do país. Mais de um século depois, aproxima-se o derby eterno de todas as emoções.

Sporting – Benfica: de 2000/01 a 2007/08

Aproveitemos para revisitar a história recente, a partir do século em que nos encontramos.

2000/01: Sporting 3-0 Benfica (Acosta, Pedro Barbosa, Beto)
2001/02: Sporting 1-1 Benfica (Jardel; Jankauskas)
2002/03: Sporting 0-2 Benfica (Zahovic, Tiago)
2003/04: Sporting 0-1 Benfica (Geovanni)
2004/05: Sporting 2-1 Benfica (Liedson 2; Nuno Gomes)
2005/06: Sporting 2-1 Benfica (Luís Loureiro, Liedson; Simão)
2006/07: Sporting 0-2 Benfica (Ricardo Rocha, Simão)
2007/08: Sporting 1-1 Benfica (Vukcevic, Cardozo)

Numa análise simplista, facilmente se conclui que o equilíbrio é a nota dominante - nos derbys do século XXI, dois empates a uma bola intrometem-se no conjunto de três vitórias para cada lado. Se alguém quiser arriscar um prognóstico, tentem adivinhar a sequência seguinte: V-E-D-D-V-V-D-E-?

Chave do derby

Desfeitas algumas indecisões, nas escolhas técnicas dos melhores intépretes, a chave do derby está...na imaginação individual dos jogadores mais talentosos. Um dia, Cruijff teve um expressão curiosa, ao afimar que "a Itália nunca venceria a Holanda, mas a Holanda poderia perfeitamente perder com a Itália". Neste caso, para ambos os clubes envolvidos na contenda, poderia apostar na lógica seguinte: (i) para não perder bastará seguir à risca o plano táctico traçado, acrescentando-lhe doses elevadas de motivação e concentração; (ii) para vencer será necessário libertar a imaginação dos homens capazes de desequilibrar - a fantasia de Reyes, os remates de Izmailov, os passes de Aimar, a técnica de Vukcevic, a velocidade de Suazo, a mobilidade de Liedson. O colectivo pauta o equilíbrio. O indivíduo decide o derby.

O "telefone vermelho"

Tal como feito aquando da visita ao dragão, as linhas que se seguem poderiam representar a abertura de um canal de comunicação com Quique Flores. Uma espécie de "telefone vermelho". Nada a ver com a transmissão entre a Casa Branca e o Kremlin, excepção feita ao precioso objecto que serve de inspiração a esta loucura literária.

"Alô!? Quique? Daqui Catenaccio. Estou bem, obrigado. Epá, se não te importas, podes desligar a PS3? Já agora, o som de flamenco também está um bocado alto. Desculpa lá, mas o que tenho para falar contigo é importante. O Paco está por aí? Óptimo. Ele que traga o papel cavalinho e comece por desenhar um losango. Então, escuta com atenção..."

Um olhar sobre o rugido do leão

Muito bem. Comecemos pelo intervenientes que movimentam o losango. Pega nestes nomes e coloca-os nos sítios apropriados: Tiago, Abel, Carriço, Polga, Caneira, Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic, João Moutinho, Liedson e Hélder Postiga. À primeira vista, pode parecer um daqueles puzzles do Papagaio Sem Penas, mas vais ver que até uma criança de 4 anos sabe encaixar as peças correctamente. Já está? Claro, não era difícil. Faz o seguinte: desmonta tudo e imprime a imagem que fiz questão de digitalizar. Sabes, é que o Paulo Bento gosta de inovar algumas "nuances" geométricas – o 4x4x2 losango híbrido.

Quique, em relação à atitude mental é manter a personalidade registada no dragão. Quanto a isso, estamos conversados. Agora, não te deixes enganar com o cabelinho do Paulo Bento. Cuidado, pois o treinador leonino não procura atingir a águia com o primeiro disparo; antes guarda a pólvora para o momento em que algumas penas forem caindo no relvado. Para que tu entendas: acredito que o Sporting vai deixar o Hélder Postiga no banco e Vukcevic será o companheiro de Liedson, na frente de ataque. Faz toda a diferença, sabes?

Em primeiro lugar, creio que o meio-campo será fortalecido com um elemento mais preparado para a transição defensiva. Embora o Escribá te possa dizer o contrário, o Paulo Bento sabe que vamos alinhar com uma linha de quatro jogadores no meio-campo. Quique, repara no seguinte: com Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic e João Moutinho, o 4x4x2 losango acaba por assemelhar-se, em posse de bola, a um 4x1x3x2. Face à qualidade técnica dos nossos jogadores ofensivos, é previsível a inclusão de Vukcevic numa zona próxima de Liedson.
Em segundo lugar, o jogador montenegrino encontra-se numa forma excelente e seria contraproducente utilizá-lo em tarefas defensivas. Por conseguinte, a colocação do ex-proscrito de Paulo Bento em terrenos mais avançados, permite que a liberdade concedida se transforme em ocasiões de golo. Desta forma, com Izmailov na meia-esquerda, mais qualificado para suportar as eventuais de Maxi Pereira, a dupla de leste pode apoveitar a lentidão de Luisão e o espaço deixado nas costas da nossa defesa.

Só mais uma dica relacionada com os cruzamentos - cautela na forma como a equipa faz a basculação em largura, porque os cruzamentos vindos da direita, perto da grande área, costumam apontar para a entrada de um elemento ao segundo poste; ao invés, no flanco contrário, há a tendência para tentar chegar à linha de fundo, através de acção individual, solicitando depois, com um passe atrasado, a chegada de um companheiro nas imediações da grande área.

Quique, claro que haveria muito mais aspectos estratégicos para debater. Se pretenderes aprofundar alguns temas, fica sabendo que estou disponível para jantar no "La Paparrucha". Obviamente, a logística e todos os gastos suplementares ficam por tua conta.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Regulations on Player Status and Transfers

A chamada de atenção partiu do consócio Americano, escriba do blogue Ontem vi-te no Estádio da Luz, com base num artigo publicado no 'Futebol Finance' sobre as novas regras para transferências e salários de jogadores de futebol.

Cronologia dos acontecimentos

No final de Janeiro, foi noticiado que a UEFA tinha encetado conversações com a European Club Association (ECA), no sentido de regulamentar a quantidade de verbas que cada clube pode despender em transferências e salários de jogadores. De acordo com um alto responsável da UEFA, a proposta dos maiores clubes Europeus sugeria que apenas fosse permitido aos clubes gastar 51% das suas receitas na aquisição de novos jogadores e nos seus salários.
No dia 10 de Fevereiro, a Assembleia Geral da ECA alcançou outros progressos significativos: (i) na protecção dada aquando da assinatura do primeiro contrato profissional, por parte de jovens talentos futebolísticos; e, (ii) na discussão sobre itens incluídos no artigo 17 da FIFA - Regulations on the Status and Transfer of Players.

Âmbito da proposta

Segundo a proposta da ECA (antigo G-16), as receitas elegíveis para apurar os 51% do montante de transferências são: bilheteira, patrocínios, merchandising e direitos televisivos. Todavia, as receitas não devem incluir nenhum investimento financeiro de proprietários ou accionistas dos clubes.

Sem querer abusar de uma linguagem demasiado técnica, creio ser útil adiantar alguns esclarecimentos.
Em primeiro lugar, há que distinguir os conceitos seguintes: receitas (reconhecimento da recepção de um valor em troca de um bem ou serviço cedido) respeitam a óptica financeira; proveitos (bens ou serviços acabados de produzir e aptos para venda) seguem a óptica económica; e, por fim, recebimentos (entradas de dinheiro) correspondem à óptica de tesouraria.
Em segundo lugar, no seguimento do anterior, acrescente-se que as receitas não se perfilam, necessariamente, como papel químico da época desportiva, existindo situações conhecidas de antecipação das mesmas, sendo os direitos televisivos o exemplo mais recorrente; numa perspectiva distinta, a demonstração de resultados líquidos espelha a concorrência entre os montantes contabilizados de custos e proveitos.
Pretendo, apenas, deixar bem vincado que o rácio de 51% das receitas elegíveis pode ser passível de manipulação financeira. Aquilo a que muitos costumam denominar de contabilidade criativa. Para os mais curiosos nestas matérias, informo que o Orgão de Gestão de Licenciamento, da Federação Portuguesa de Futebol, ocupa-se, entre outros tópicos, dos procedimentos de admissão dos clubes às competições da UEFA. O Manual de Licenciamento pode ser acedido aqui.

Caso prático para a realidade nacional

Tendo como suporte o Relatório & Contas Consolidado 2007/2008 da Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD para o período de 1 de Agosto de 2007 a 30 de Junho de 2008, atente-se nos seguintes valores de receita (em milhares de euros):

Proveitos Operacionais

Publicidade e patrocínios = 9.726
Transmissões televisivas = 8.409
Prémios das competições europeias = 7.883
Quotizações = 7.848
Receitas de bilheteira = 7.686
Cativos = 2.868
Merchandising = 2.470
Outros = 2.613

Total (sem considerar transacções de atletas) = 49.503 - 49,5 m€

Notas adicionais importantes, retiradas do Relatório & Contas:

1. "O Grupo reconhece, como proveitos, cerca de 75% do valor líquido das quotizações de Sócios, que são proveitos da Benfica SAD ao abrigo do contrato de cedências dos direitos de exploração do Complexo Desportivo, no período a que estas se reportam".

2. "As receitas e prémios de jogos são reconhecidos em proveitos no período em que estes são realizados".

3. "O Grupo reconhece as receitas relativas a publicidade, patrocínios e outros direitos de acordo com o período de vigência do respectivo contrato".

4. "Naturalmente, no médio e longo prazo, deverá ser obtido um crescimento muito significativo das receitas operacionais quando chegar o momento adequado para a renegociação dos direitos televisivos".

Voltemos ao artigo publicado no 'Futebol Finance'. Conforme análise do autor, validam-se os dados apresentados:

- 51% das receitas (leia-se proveitos operacionais) 2007/2008: 49,5 m€ x 51% = 25.2 m€
- Gasto em jogadores 2008/2009: 25,3 m€

Contudo, subsiste a dúvida em saber qual a decisão dos dois organismos em relação às aquisições feitas a prestações e à integração das receitas provenientes da quotização.

Lei "salva calcio"

Introduzido pelo governo italiano, o decreto-lei n.º 282 de 24 de Dezembro de 2002 deu origem à Lei "salva calcio" n.º 27 de 21 de Fevereiro de 2003. Stephen Morrow, professor na Universidade de Stirling - Department of Sports Studies - debruçou-se sobre o impacto contabilístico, na realidade do futebol italiano, das prerrogativas admitidas pelo "salva calcio". Inicialmente, o decreto foi adoptado por quinze clubes: sete da série A (incluindo Inter, Lazio, Milão e Roma) e oito da série B, segunda divisão. Em traços gerais, esta disposição legal permitia aos clubes estender o período de amortização inicial, associado ao contrato de um jogador profissional entendido como um activo intangível da organização. No caso do valor de mercado, de determinado atleta, sofrer uma perda no valor de realização, o correspondente efeito não seria registado na demonstração de resultados do exercício. Principal consequência: sem a introdução legal deste arranjo, existia o risco elevado de vários clubes enfrentarem um cenário de insolvência - onde as dívidas excederiam os activos - pois as sociedades desportivas não estariam em posição para fazer face às amortizações, no curto prazo. Apesar das boas intenções (e o mesmo pode suceder quanto ao regulamento anteriormente referido), este tratamento contabilístico não escapou a algumas vozes mais críticas: o suporte legal deu azo a que diversos clubes mantivessem uma actuação inadequada, no exercício da gestão financeira - acréscimo de activos, aumento da massa salarial e consequente ampliação dos custos com amortizações - cedendo à tentação de mascarar as peças contabilísticas divulgadas. O princípio era claro: os clubes, ao serem encorajados a transaccionar acima da sua sustentabilidade de longo prazo, procuravam atingir rácios financeiros que cumprissem com o sistema de licenciamento imposto pela UEFA.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

[Liga Sagres 17.ª J] FC Porto 1-1 SL Benfica

Pergunta: para quê escrever rebuscados tratados sobre modelos de jogo, quando dragão não rima com táctica? Com emoção, talvez. Com desilusão, sem dúvida. Também há quem diga que dragão rima com organização. Típica expressão à la Rui Moreira. Seis milhões de indivíduos chamar-lhe-iam outra coisa...

Não vou escrever sobre as incidências do clássico. Pura e simplesmente não me apetece rebater dibujos tácticos. Tampouco analisar a performance exibicional dos jogadores encarnados. Pretendo, apenas, enviar uma mensagem à família benfiquista.

Faltam treze jornadas para o término da Liga Sagres. No meu entender, é a altura decisiva para enterrar "machados de guerra" internos. Por outras palavras, até final da competição sugiro que o sentimento de união prevaleça sobre a toada crítica que a imprensa desportiva faz questão de lembrar diariamente.

Não é o momento certo para testar a eloquência de Luís Filipe Vieira. Não é o "timing" ideal para criticar a tonalidade das gravatas de Rui Costa. Não é, concerteza, a altura correcta para desconfiarmos das competências técnicas de Quique Flores. Não há razão para assobiar este ou aquele jogador, suspirando por uma estrela futebolística da qual vimos maravilhas no You Tube.

Diferentes opiniões, ou perspectivas, não devem servir como desculpa para que a nação encarnada se desvie do objectivo principal - a conquista da Liga Sagres, nem devem atraiçoar a dura realidade dos factos: estamos envolvidos numa luta desigual, contra um adversário mais do que identificado, a fazer exigir um espírito colectivo, de acordo com o nosso lema - Et Pluribus Unum!

P.S. Ao contrário dos critérios literários definidos como excelentes, esta entrada registou a palavra não em oito ocasiões. O negativismo expresso no texto espelha o estado de alma do autor, derivado da prática de mais uma machadada na verdade desportiva - como se o futebol português ainda tivesse algo saudável a que se agarrar. Aos leitores, as minhas desculpas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar no Dragão?

Na contagem decrescente para a partida do dragão, impõe-se a seguinte interrogação: será o jogo decisivo para o desfecho da Liga Sagres? Depende. A resposta só é afirmativa no caso da vitória sorrir ao FC Porto. Nesse cenário, os actuais detentores do troféu dilatariam o avanço, sobre o rival, para além de beneficiarem do confronto directo, em caso de igualdade, mercê do empate registado na Luz.

O treino como fotograma do «jogar»

Nestes encontros, tornou-se hábito afirmar que o vencedor será aquele que melhor controlar o factor imprevisibilidade. O tópico sobre o domínio dos detalhes – físico, mental, táctico e técnico – pode ser encarado como a gestão eficaz dos pormenores: a importância de uma bola parada ou um momento de desconcentração na transição defensiva, entre outras circunstâncias ditadas pelo desenrolar da própria partida. Apesar do âmbito natural dos treinadores ser um espaço limitado, quanto mais situações particulares forem treinadas, menor será a influência deste factor.

Chave do clássico

No meu entender, a chave do clássico está em...Quique Flores! Do lado do campeão nacional, a imprevisibilidade, positiva ou negativa, encontra-se, cada vez mais, dominada pela maturidade táctica trabalhada por Jesualdo Ferreira. Ao contrário, no Benfica, o grupo depende, em demasia, da inspiração e talento das individualidades. Cabe ao treinador espanhol reduzir o impacto associado ao que commumente se denomina de sorte e azar, levando a equipa a assimilar índices elevados de confiança, consistência e personalidade.

Lado mental ou táctico?

Deste modo, para a nação benfiquista, as decisões protagonizadas por Quique Flores podem representar a ténue diferença entre o ponto de ebulição ou o arrefecimento dos níveis de euforia. Em primeiro lugar, as escolhas técnicas: quem fará parte do onze titular? Miguel Vítor ou Sidnei? Carlos Martins ou Yebda? Di María ou Reyes? Cardozo ou Suazo? Em segundo lugar, como conciliar uma estratégia de contra-ataque com um discurso ambicioso? A meu ver, reside aqui a questão fundamental: como será Quique capaz de motivar e tranquilizar os seus jogadores, sabendo-se que a mensagem para o exterior, plena de convicção e modernidade, nem sempre se coaduna com o real comportamento no relvado, assente em linhas posicionadas num bloco médio-baixo e excesivamente dependente da aposta na velocidade de Suazo, com passes em profundidade? Conflito entre o lado mental e a vertente táctica.

Um olhar sobre os passos do dragão

Sem pôr de parte uma pitada de seriedade, esta secção tem um registo mais irónico. A ideia é imaginar um conjunto de enunciados transmitidos directamente a Quique Flores. Uma espécie de conversa fictícia, completamente orientada para a 2.ª pessoa do singular. Poderia ser, mais ou menos, uma coisa do género...

Quique, como o Diamantino já te explicou, o FC Porto tem construído a sua "casa" táctica à volta do 4x1x3x2. Os jogadores, e posições respectivas, já conheces. Basta lembrares-te daqueles que não coleccionaram bilhete de comboio: Fucile, Rolando, Bruno Alves e Cisskho, no quarteto defensivo; como tampão às investidas ofensivas do adversário, Fernando; mais à frente, um trio constituído por Lucho González, Raul Meireles e Cristián Rodríguez; por fim, na zona de finalização, a dupla formada por Hulk e Lisandro. Suponho que, até aqui, estás a acompanhar.

a) O FC Porto, com bola

Quique, a parte que se segue é importante. Por esta altura, já reconheces as deficiências da tua equipa, logo deves prever que o adversário procure atacar os nossos pontos fracos. Um deles, tem a ver com a maior liberdade concedida a Maxi Pereira. Eles podem aproveitar esse espaço nas costas, caindo do lado de Luisão que, já de si, não prima pela velocidade de reacção. É natural que Hulk pise esses terrenos e há que tomar cuidados acrescidos. O outro, está relacionado com o excessivo espaço entre os jogadores encarnados, principalmente na zona do meio-campo. Bem sei que o Ruben Amorim interioriza e dá um apoio fundamental, mas é prevísivel que Lucho e Rodríguez tentem forçar o eixo central. Portanto, muita atenção à forma como a equipa pressiona em largura e à interligação dos diversos sectores.

b) O FC Porto, sem bola: versão 4x3x3

Quique, se calhar é melhor ires chamar o Paco que agora vão aparecer uns dibujos. Editando a imagem, até podes pensar nalguns melhoramentos: (i) se quiseres indicar os movimentos de transição, adicionas umas setas; (ii) se pretenderes representar a dinâmica dos jogadores, acrescentas uns raios de acção; e, (iii), caso queiras espelhar a forma como a zona deve ser interpretada, colocas zonas individuais de intervenção. Por fim, exportas o resultado final para powerpoint e vais ver que resulta. Bem, vamos ao que interessa?

Quique, quando o FC Porto não tem a posse de bola, pode optar por vários caminhos de pressão que melhor sirvam a tarefa de recuperação e consequente saída rápida para o ataque. Antes que possas retorquir - se o FC Porto actua, preferencialmente, num 4x1x3x2, porquê esta ilustração em 4x3x3? - adianto que Jesualdo Ferreira pode pensar neste esquema posicional, como forma de melhor distribuir os jogadores no relvado. Esta versão tem a particularidade de potenciar uma pressão média-alta, sendo muito agressiva no eixo central. A intenção será impedir a nossa saída de bola, asfixiando Yebda e Katsouranis. Quando assim acontecer, dá logo a instrução para a transição ofensiva seguir circuitos junto à linha, quer por intermédio de Maxi Pereira, quer através do apoio de David Luiz. Por razões ligadas a características individuais, Rodríguez, à esquerda, e Lisandro, à direita, nem sempre vão ter a disponibilidade física para acompanhar o lateral da sua faixa.

c) O FC Porto, sem bola: versão 4x1x3x2

Quique, chama o Paco outra vez que ainda não terminámos. O próximo dibujo, em termos meramente posicionais, oferece a perspectiva típica do FC Porto actual.

Neste cenário, o adversário procura a intensidade de um primeiro momento de pressão, sendo que Hulk cai no espaço entre Maxi Pereira e Luisão, enquanto Lisandro pisa os calcanhares de Miguel Vítor (Sidnei?) e David Luiz. Porém, ao contrário do que possa parecer, esta hipótese deixa maior margem de manobra para a dupla Yebda e Katsouranis saírem com a bola jogável. Inteligentemente, diga-se de passagem, será de esperar que caiba a Raul Meireles (e não a Rodríguez) a função de fechar o lado esquerdo, precavendo as subidas do nosso lateral uruguaio. Do lado oposto, Lucho não deixará de seguir os passos de David Luiz, mas num tipo de marcação menos vincado ao homem. Só mais um pormenor: toma nota que neste quadro, mal os jogadores do FC Porto recuperem a bola, já se encontram colocados nas suas posições naturais para desenvolverem a transição ofensiva.

Quique, penso que é tudo. O resto já deves dominar a preceito. De qualquer modo, podias imprimir este excerto do texto e ias a pensar nisto durante a viagem para o Porto. Se houver alguma dúvida, já sabes - o meu endereço de email está vísivel no profile. Fica à-vontade que eu deito-me tarde. O mais certo é estar por aqui a fazer uns dibujos, ok?

Nota final: Quique Flores em Valência

Vale a pena observar o percurso de Quique Flores, na altura treinador do Valência, nomeadamente quanto aos confrontos forasteiros com Barcelona e Real de Madrid.

Época 2005/06:
Barcelona 2-2 Valência
Real de Madrid 1-2 Valência

Época 2006/07:
Barcelona 1-1 Valência
Real de Madrid 2-1 Valência

Curioso. Em quatro visitas aos palcos dos rivais, só por uma vez Quique Flores sentiu o amargo da derrota. Outro dado interessante: o Valência nunca ficou em "branco". Vale o que vale, mas trata-se de um bom indício que não merece ser menosprezado. Pelos vistos, a estratégia de contra-ataque ainda deve conter atributos escondidos...