Penitencio-me pela menor disponibilidade em escrever algo mais do que meia dúzia de linhas, apesar do interesse pelo dia-a-dia encarnado não ter diminuído. Antes pelo contrário. Em primeiro lugar, tenho andado mais activo aqui: http://www.twitter.com/catenacc10. Em segundo lugar, nos últimos dias (semanas) tenho dialogado, presencialmente, com várias figuras ligadas ao universo benfiquista.Tal como se tem repetido nos anos mais recentes, o clube volta a atravessar um período atribulado onde o nível exibicional da equipa cria um sentimento de desconfiança nos sócios e adeptos encarnados. É verdade que os jogadores tardam a produzir um futebol que tranquilize as bancadas e até Quique Flores já perdeu o seu estado de graça. Todavia, o momento actual de descrença encontra eco num ponto fundamental: o FC Porto caminha, a passos largos, para 4.º título consecutivo e a hegemonia nacional do Benfica encontra-se seriamente ameaçada. Já há quem comece a contar os anos que restam para que o FC Porto ultrapasse o Benfica no número de campeonatos conquistados (dados retirados do jornal «A Bola»). Ao contrário da selecção, não é preciso máquina de calcular:
FC Porto (23)
I Liga: 1934/35 (1)
I Divisão: 1938/39; 1939/40; 1955/56; 1958/59; 1977/78; 1978/79; 1984/85; 1985/86; 1987/88; 1989/90; 1991/92; 1992/93; 1994/95; 1995/96; 1996/97; 1997/98 e 1998/99 (17)
Superliga: 2002/03 e 2003/04 (2)
Liga: 2005/06; 2006/07 e 2007/08 (3)
SL Benfica (31)
I Liga: 1935/36; 1936/37 e 1937/38 (3)
I Divisão: 1941/42; 1942/43; 1944/45; 1949/50; 1954/55; 1956/57; 1959/60; 1960/61; 1962/63; 1963/64; 1964/65; 1966/67; 1967/68; 1968/69; 1970/71; 1971/72; 1972/73; 1974/75; 1975/76; 1976/77; 1980/81; 1982/83; 1983/84; 1986/87; 1988/89; 1990/91 e 1993/94 (27)
Superliga: 2004/05 (1)
Os 14 títulos conquistados desde a época 1987/88 mostram a sequência avassaladora do FC Porto nos últimos vinte anos. A manter este ritmo, com ou sem benefícios do 'sistema', não tardará a que vejamos muitos homens adultos a chorar, sentados ao colo da mãe. Força de expressão, mas não deixa de ser dramático.
Na semana passada, aquando do lançamento do 'Anuário do Futebol Mundial 2008/09', escrito por Rui Malheiro, tive o prazer de debater este assunto (entre outros) com o conhecido José Marinho. A propósito, a sua crónica semanal já está publicada no sítio do costume.
Num ponto concordamos: não é possível o Benfica continuar com a mesma política desportiva, com as prioridades centradas na (in)justiça dos tribunais quando, em última instância, as vitórias e os campeonatos decidem-se (queremos acreditar) no relvado. O actual discurso da actual Direcção, com o presidente ocupado a inaugurar casas do clube por esse país fora e demasiado preocupado com a promoção da intangível marca Benfica, deve ser rejeitado, sob pena dos verdadeiros activos (jogadores) fracassarem na espinhosa missão de acrescentar companhia aos troféus gloriosamente conquistados por gerações anteriores.
Noutra questão divergimos ou, por outras palavras, temos diferenças de entendimento quanto à solução praticável: na opinião de José Marinho, uma figura bem conhecida dos benfiquistas, também de nome José, mas apelido Veiga, seria a pessoa melhor preparada para combater (o termo é mesmo este) o domínio azul e branco. Não desfazendo do seu profícuo trabalho enquanto director desportivo, os anticorpos do passado, com epicentro numa longíqua casa do Luxemburgo, não estão totalmente curados e compreendidos pela nação encarnada. Embora várias qualidades profissionais de José Veiga mereçam ser tidas em conta, o seu temperamento e modo de acção sugere uma rixa dentro do 'sistema'. Correndo o risco de alguma ingenuidade, prefiro um Benfica situado numa supra-dimensão, ou seja, jamais pretendo que o meu clube combata o 'sistema' com as mesmas armas, mas antes o derrube, não nos tribunais, mas em campo, com classe e mística à Benfica.
O texto já vai longo, mas não poderia deixar de escrever umas linhas finais sobre o meu encontro de ontem à tarde com um notável benfiquista, bem conhecido do público em geral. Tudo começou através de troca acesa de razões sobre a competência, ou falta dela, de Quique Flores. O debate virtual sublinhou distintos pontos de vista – essencialmente sobre o papel de Rui Costa e o modelo de jogo do treinador – mas, ao mesmo tempo, a esgrima de argumentos foi acompanhada por uma admiração crescente quanto ao tom e nível de conversação utilizado. Sem espantar, passados alguns emails de cá para lá, foi marcada uma breve tertúlia para discutir a actualidade do Benfica. A conversa durou praticamente uma hora e correspondeu plenamente às expectativas criadas, pese as naturais diferenças e visões que temos sobre aquilo que é (pode ser) melhor para o clube do qual partilhamos o cartão de sócio. Foi um final de tarde bem passado, em tom descontraído, esperando que a ocasião se repita amiúde, noutros locais e em outras circunstâncias. Em traços gerais, não ferindo questões do foro privado, diria que chegámos a idêntica conclusão: desportivamente, porém com prováveis consequências económicas, torna-se insustentável persistir num rumo contrário ao do sucesso, sendo crucial apontar baterias para o regresso das vitórias – o panorama presente exige que nós, benfiquistas, honremos a história deixada pelos mais antigos e façamos uma reflexão séria sobre os principais assuntos que dizem respeito à nação encarnada. Caso contrário, pode muito bem acontecer que daqui por dez anos estejamos a pensar como foi possível o FC Porto ter alcançado a marca do 32.º título nacional.




