Os três estados da matéria são facilmente reconhecidos: sólido, líquido e gasoso. Ironicamente, poderia mencionar o estado online, segundo o qual todos os seres humanos se agrupam em determinados formatos HTML. Contudo, olhemos para as últimas novidades científicas. Em meados de Agosto deste ano, diversos investigadores apontaram para a descoberta de um novo estado, de natureza superior, previsto por intrincadas fórmulas matemáticas: o estado eufórico, traduzido numa sensação fisiológica de bem-estar.Este estado de euforia, quase permanente, tem invadido um número infindável de lares benfiquistas, levando ao desespero uma fatia algo considerável da população portuguesa. Segundo os últimos relatos, trata-se de uma verdadeira pandemia, potencialmente mais ameaçadora que o vírus H1N1. Esta nova estirpe atravessa todo o país, contagiando homens e mulheres, velhos e crianças, pessoas de todas as raças, credos e estratos sociais. Para uma larga franja de historiadores, maioritariamente adeptos de teorias da conspiração, o estado eufórico significa um passo decisivo no estabelecimento da "New World Order".
No meio deste ambiente tenebroso, a comunicação social está longe de ser inocente. Não há como esconder: depois de cada jogo em que o Benfica esteja envolvido, mais e mais pessoas são afectadas por um clima de euforia contagiante. Este novo surto gripal, qual moderno estado da matéria, tem coberto o país de forma imparável e a imprensa desportiva não se cansa de repetir, até à exaustão, que os adeptos encarnados encontram-se num estado de euforia constante. Sinceramente, já começo a ficar cansado da utilização abusiva da expressão.
Por exemplo: apenas como mero exercício de suposição (nem sei como me fui lembrar disto), tenho alguma pena que o treinador Manuel Machado não seja profissional da comunicação social. Já viram como poderíamos alcançar o 'nirvana', atingindo um estado de êxtase superior? Ora reparem: após cada vitória, poderíamos alternar o optimismo com a alegria do resultado, o entusiamo com a satisfação do dever cumprido, inclusive o contentamente com a exultação do nível exibicional. Vá lá, esforcem-se um bocadinho...
Para terminar, confesso que também já fiquei contagiado pela sensação de arrebatamento transmitida pela euforia. Não há como disfarçar, até porque raro é o dia em que não adormeço com um sorriso parvo no rosto. Vou relatar um episódio que espelha bem esta mudança: no outro dia, repimpado a saborear uma apetitosa refeição, tendo um vinho tinto excelente por companhia, um familiar próximo olha-me nos olhos divertido e diz-me que já estou excessivamente alegre, pelo que devia beber mais água e deixar de lado o Afredo Roca Malbec de 2004. A situação é de tal ordem que alguns amigos já me perguntaram se andava a fumar haxixe. Não estou preocupado, mas já me avisaram que, em casos muitos graves, a euforia pode dar lugar ao deslumbramento. A palavra até arrepia. É capaz de ser perigoso, não?



