sexta-feira, 9 de maio de 2008

A singularidade do guarda-redes

Aviso que o texto é longo. Talvez fosse oportuno imprimir para ler mais tarde, talvez nos tempos livres. Como definir um guarda-redes moderno? Será que o dono da baliza, o jogador solitário, faz parte dos sistemas defensivo e ofensivo? Comecemos com alguma revisão de literatura.
Na sua coluna semanal, Rodrigo Azevedo Leitão oferece pistas interessantes. Na sua opinião, o guarda-redes deixou de ter a função que lhe dera origem (proteger a baliza, defendendo-a com qualquer parte do corpo em sua área de acção) e passou também a desempenhar um importantíssimo papel na organização tática defensiva e ofensiva de uma equipa. Em termos de dinâmica, o autor considera que as equipas que estão sendo pressionadas recorrem, muitas vezes, ao guarda-redes como ponto de apoio, para fazer a bola girar de um lado para o outro do campo, deslocando a marcação adversária.
Também Luís Freitas Lobo debruça a sua atenção ao que denomina o estranho mundo dos guarda-redes. No seu entender, o guarda-redes é um solitário. Não tem companheiros directos de sector mas há muito que a sua importância, em termos de participação e influência no jogo, cresceu para lá das defesas milagrosas. O conhecido analista português define o que se espera de um guarda-redes moderno. Quando a equipa tem a bola, é mais um jogador. Quando a perde, tem de lhe conseguir dar pelo menos 20 metros de risco para estar subida pois, nesse momento, é ele quem lhe protege as costas. Tornou-se um jogador de equipa de corpo inteiro. Quem não tiver um com estas duplas características, fica desde logo muito limitado, não a defender, mas sobretudo a atacar.

Historicamente, em termos de estilo, existem diferenças significativas. Nas palavras de Luís Freitas Lobo podem-se distinguir: a latina, a de Leste, a britânica e a do Norte da Europa, cada uma com o seu estilo, mas todas distantes do exotismo da escola sul-americana. Aproveitemos o contributo de Luís Freitas Lobo, para fotografar algumas delas.

Em primeiro lugar, para citar um bom exemplo, a escola italiana revela excelente posicionamento, agilidade e capacidade de orientar a defesa. Morfologicamente, são de baixa estatura, mas compensam essa suposta inferioridade através de uma agilidade felina.
Por sua vez, a escola de Leste criou o mito do guarda-redes frio, quase glaciar. O ponto fraco dos gigantes de Leste acaba por estar na saída a cruzamentos. Muitas vezes, calculam mal o tempo de saída e as redes ficam desertas.
Em Inglaterra, é inevitável falar de Gordon Banks. Sóbrio, mas com um poder de impulsão invulgar, realizou a mais famosa defesa de todos os tempos, no Mundial'70, ao defender, junto à relva, um forte cabeceamento, de cima para baixo, executado por Pelé.
Pelo contrário, a América do Sul preconiza uma forma diferente de sair da baliza. A partir dos anos 60, todos os guarda-redes europeus saem em queda aos pés do avançado, colocando lateralmente o corpo. Na América do Sul, saem de joelhos com o corpo na vertical. Depois, que dizer de René Higuita, o louco guarda-redes colombiano que assombrou pela forma como tentava o drible e lançava o ataque.
Por fim, breves palavras para a escola africana. No Mundial'82, N'Kono defendia bolas incríveis, para depois deixar escapar outras inofensivas. A sua originalidade estava na forma imóvel como ficava, de braços caídos, quando um avançado lhe aparecia pela frente isolado.

Na generalidade, concordo com a argumentação de Luís Freitas Lobo.
Contudo, a questão que gostaria de colocar é a seguinte: será que um treinador, ou responsável desportivo, quando avança para a contratação de um guarda-redes decide, apenas e só, com base nas suas qualidades individuais? Ou, pelo contrário, projecta a imagem do guarda-redes como um elemento fundamental para a implementação dos princípios de jogo colectivos?

Imaginemos o treinador de um clube habituado a lutar pela conquista de títulos. À partida, na maioria dos jogos, essa equipa gere a posse de bola, controla (domina) os acontecimentos e instala-se no meio-campo adversário. A defesa, ao subir no terreno, aumenta a distância que a separa do guarda-redes e um dos perigos visíveis são os passes em profundidade que colocam a bola nas costas da defesa. Para preencher esse espaço vazio impõe-se o adiantamento do guarda-redes para perto da entrada da área. Tal exige leitura de jogo atenta, velocidade e bom jogo de pés, para chegar primeiro à bola que o avançado, numa zona onde é proibido jogar com as mãos. Fazendo novamente referência a Luís Freitas Lobo, é o que ele chama de guarda-redes líbero.
No caso de uma equipa de menores ambições, a realidade pode ser completamente diferente. Normalmente, é privilegiado um bloco médio-baixo, de linha defensiva recuada e sectores bem unidos, quer com duas linhas de quatro homens, quer deixando um único homem à espreita do contra-ataque. Nesta situação, outros atributos são exigidos ao guarda-redes: familiaridade nas saídas a cruzamentos, comando de área e reposição, da bola em jogo, rápida e precisa. Em suma, tem de transmitir a sensação de encher a baliza. É sobre este último ponto que gostaria de apresentar um exercício de prospecção.

Quando penso nas qualidades individuais de qualquer guarda-redes, há certos atributos - psicológicos (concentração competitiva, determinação, entre outros) e físicos (agilidade, velocidade, força) - que teriam cabimento para um jogador de campo. Porém, se falarmos de característica técnicas, o caso muda de figura. A um guarda-redes exige-se, sobretudo: comando de área, comunicação, jogo de mãos, pontapé longo, reflexos e saídas a cruzamentos. Por sua vez, a envergadura física desempenha factor distintivo. Neste sentido, o meu trabalho de prospecção incide sobre guarda-redes de altura superior a 1,90 metros. Daqueles que, em linguagem popular, são denominados de "polvos gigantes". Aqui ficam 10 personalidades de vários pontos do mundo, por ordem crescente de estatura.

Nome completo
Austin Ejide
Clube
Bastia
Data de nascimento
08.04.1984 (24 anos)
Nacionalidade: Nigéria
Altura: 1,90m
Peso: 98kg

Nome completo
Yohann Pelé
Clube
Le Mans
Data de nascimento
04.11.1982 (25 anos)
Nacionalidade: França
Altura: 1,92m
Peso: 79kg

Nome completo
Stipe Pletikosa
Clube
Spartak Moscovo
Data de nascimento
08.01.1979 (29 anos)
Nacionalidade: Croácia
Altura: 1,93m
Peso: 83kg

Nome completo
Artur Boruc
Clube
Celtic Glasgow
Data de nascimento
20.02.1980 (28 anos)
Nacionalidade: Polónia
Altura: 1,93m
Peso: 88kg

Nome completo
Maarten Stekelenburg
Clube
Ajax
Data de nascimento
22.09.1982 (25 anos)
Nacionalidade: Holanda
Altura: 1,94m
Peso: 84kg

Nome completo
Márton Fulop
Clube
Sunderland
Data de nascimento
03.05.1983 (25 anos)
Nacionalidade: Hungria
Altura: 1,97m
Peso: 92kg

Nome completo
Fabio Coltorti
Clube
Racing Santander
Data de nascimento
03.12.1980 (25 anos)
Nacionalidade: Suiça
Altura: 1,97m
Peso: 96kg

Nome completo
Andreas Isaksson
Clube
Manchester City
Data de nascimento
03.10.1981 (26 anos)
Nacionalidade: Suécia
Altura: 1,97m
Peso: 78kg

Nome completo
Azmir Begovic
Clube
Portsmouth
Data de nascimento
20.06.1987 (20 anos)
Nacionalidade: Canadá
Altura: 1,98m
Peso: 83kg

Nome completo
Zeljko Kalac
Clube
AC Milan
Data de nascimento
16.12.1972 (35 anos)
Nacionalidade: Austrália
Altura: 2,02m
Peso: 95kg

Em termos internacionais, o registo do provável top 3 mostra guarda-redes de elevada estatura física: Iker Casillas (espanhol, Real Madrid, 26 anos e 185cm), Gianluigi Buffon (italiano, Juventus, 30 anos e 188cm) e Petr Cech (checo, Chelsea, 25 anos e 196cm).
Em Portugal, a tradição mostrava guarda-redes com menos centímetros, mas a tendência actual vai no sentido de seguir os padrões europeus. Na presente época, um dos melhores a defender as redes é português: Quim (184cm e 74kg). Já o menos batido da bwin Liga é brasileiro: Helton (189cm e 84kg). Destaque, ainda, para: Rui Patrício (188cm e 84kg), Eduardo (187cm e 84kg), Peter Jehle (187cm e 81kg) e Beto (180cm e 80kg). Em comum o facto de todos apresentarem valores acima dos 180cm.

Voltemos à análise de prospecção. Alguns dos nomes referidos, como Artur Boruc, Maarten Stekelenburg e Andreas Isaksson, representariam um investimento elevado, provavelmente só ao alcance dos denominados três grandes.
Quanto aos outros, mais ou menos desconhecidos, exceptuando o experiente Zeljko Kalac, podem ser encarados como uma possível oportunidade de negócio para os chamados clubes de 2.ª linha. Por um lado, porque o esforço financeiro não seria tão avultado. Por outro lado, porque algumas das contratações poderiam funcionar mediante a forma de empréstimos. Neste âmbito, poderia citar mais dois exemplos interessantes, quer pela juventude associada, quer pelo valor do passe: Dmytro Nepogodov (ucraniano, Marselha B, 21 anos e 196cm) e Samir Handanovic (bósnio, Udinese, 23 anos e 192cm).
Informo que não conheço detalhadamente alguns dos nomes que têm vindo a ser referidos. O meu objectivo foi identificar guarda-redes específicos para um modelo de jogo eventualmente mais defensivo e preparado para lances de bola parada. Neste sentido, procurei reunir dados estatísticos e pesquisar informação que completasse a análise. Poderíamos considerar este trabalho como o 1.º passo de prospecção. A fase seguinte já exigiria uma abordagem financeira e observações ao vivo.

1 comentário:

dezazucr disse...

Epá, acho que devias ter incluido aí o Peskovic, apesar dos seus 33 anos, julgo ter sido dos melhores deste ano. Sinceramente nem o Beto nem o Eduardo me entusiasmam. São bons guarda redes, mas não excelentes.
Dos que mencionaste, gosto especialmente do Boruc e do Isaksson.

Não tenho uma imagem muito boa dos guarda redes sul-americanos, isto apesar do Brasil neste momento estar a produzir também excelentes guarda-redes, basta ver o Júlio César no Inter e o Fábio do Cruzeiro.

Acho que nesta época, +1m85 devería ser requisito.