Apesar do timing pecar por tardio, o título está associado à derrota sofrida aos pé de Lisandro e Cª. Para todos aqueles que têm por hábito fazer uma análise SWOT (Strenghts, Weaknesses, Opportunities e Threats) da realidade actual, a partida de Lyon ainda faz parte de tertúlias e conversas de café sobre algumas vissicitudes tácticas.Durante o desenrolar do jogo propriamente dito, os muitos sms's trocados com outros 'camaradas' benfiquistas tiveram o efeito inverso ao desejado: em vez de um paliativo capaz de me injectar esperança para os minutos finais, recebi palavras de desânimo que tiveram o condão de aprofundar o desgosto. Nos instantes finais, ansiava por uma explicação lógica, racional e objectiva que me devolvesse o sossego e tranquilizasse o espírito. Dito e feito: resolvi enviar uma mensagem a alguém com conhecimentos de sobra para responder às minhas inquietudes...
- «Caro L. F. Lobo, já é a segunda vez que Jorge Jesus tem a mesma abordagem (a meu ver, demasiado audaz) em jogos fora da Champions League. Por exemplo: quando vejo José Mourinho, no Real Madrid, a jogar em 4x2x3x1, com Khedira e Xabi Alonso e, depois, observo um meio-campo 'macio' com Aimar, Gaitán e Martins... algo deve estar errado. A tal dimensão (exigência) europeia não devia pedir outra estratégia? Ou os erros individuais explicam tudo?» A resposta chegou às 10:23 do dia 22 de Outubro.
Entre vários raciocínios teórico-futebolísticos, o conhecido analista deixa-nos 'pistas' para alcançarmos uma conclusão. Em primeiro lugar, ao escrever que o problema de "jogo global" - isto é, o equilíbrio entre todos os seus sectores - deste actual Benfica reside neste ponto. Nenhum dos seus três médios subidos tem características de recuperadores ou equilibradores defensivos após a perda da bola. Penso no trio de Lyon, o mais utilizado esta época: Carlos Martins, Aimar, Gaitan. Todos querem ter a bola, mas, apesar de se perceber que entram com a missão clara de correr atrás dela e, antes, pressionar de imediato o adversário quando a perdem (a tal "pressão alta") essa tarefa choca com a vocação natural de cada um. Em segundo lugar, ao referir que ao mesmo tempo, olhamos para como Mourinho, no Real Madrid, frente ao Milan, adopta um claro duplo-pivot de contenção (Khedira-Xabi Alonso) em 4x2x3x1, depois de ter sido campeão europeu, no Inter, com um "trivote" de duros médios defensivos, e percebemos melhor as regras competitivas que a "dimensão internacional" exige. Para terminar, Luís Freitas Lobo encerra o tema ao afirmar que o Benfica tem um estilo de jogo sedutor. Daqueles que quase resgata princípios de outros tempos na intenção ofensiva. O processo defensivo é, porém, demasiado sensível a qualquer falha de pressão individual que a espontaneidade criativa de Aimar, Carlos Martins e Gaitan tendem a cometer.
Então, o que falta ao Benfica para resgatar aquele futebol tão avassalador e vencedor da época transacta (esqueçam Ramires e Di María)? Uma análise SWOT. Em primeiro lugar, Jorge Jesus necessita de tomar decisões a nível interno. Quais as forças (strenghts) do actual modelo de jogo? Quais as fragilidades (weaknesses) inerentes ao 4x1x3x2 com os jogadores disponíveis? O que será preferível para futebol encarnado? Escolher uma ala esquerda formada por César Peixoto e Fábio Coentrão ou recuar o internacional português para a posição de lateral e insistir na fórmula Gaitán como médio-ala? Fará sentido conciliar Airton e Javi García na zona central do terreno, de forma a incrementar o posicionamento defensivo e dotar a equipa de maior consistência? Em segundo lugar, o treinador precisa de acautelar cenários externos. Quais as oportunidades (opportunities) que surgem num horizonte próximo? Quais as ameaças (threats) que se encontram ao virar da esquina? Por outras palavras, como tirar partido dos pontos fortes que existem no plantel? Será prioritário começar já a pensar na oportunidade chamada 'mercado de Inverno', ou existem soluções para todas as situações e circunstâncias de jogo? Por outro lado, quais são as principais ameaças propostas pelo adversário seguinte? O nível competitivo sugerido pelo Lyon será idêntico ao que o Portimonense pode apresentar? São questões em aberto para os leitores.
Uma coisa é certa: quanto mais cedo o Benfica concluir este processo de auto-conhecimento futebolístico, melhor. Como em todas as equipas, existem pontos fortes e fracos a serem explorados pela 'concorrência': tanto no plano mental, como na vertente táctica. Esta reflexão colectiva, personalizada em Jorge Jesus, terá de ter em conta o ambiente particular de cada desafio, impondo a necessária flexibilidade estratégica sem porém descaracterizar o modelo de jogo. A tarefa não se afigura fácil. Os próximos jogos é que vão ditar se o actual 4x1x3x2 serve para ultrapassar todos os adversários, em todos os relvados e em todas as competições.

