segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O plano B de Jorge Jesus

Football Fans Know Better

Feyenoord e Aston Villa. O Benfica vence. O Benfica convence. A versão 2010/11 da equipa liderada por Jorge Jesus mantém os predicados da época anterior: dinâmica de todos os intervenientes, velocidade com e sem bola, mobilidade no último terço do terreno. E, golos. Muitos. Curiosamente, uma das diferenças prende-se com a mais recente abordagem táctica do Gandalf português: um 4x3x3 'mascarado', de alta pressão e elevada voltagem, com os adversários a ficarem electrocutados à passagem do relâmpago.

A ideia não é virgem. Quando Mourinho estava no Porto, depois de vencer campeonato e Taça UEFA, trouxe uma novidade táctica no início da temporada seguinte: a adopção de um 4x4x2 losango que, veio-se a descobrir mais tarde, manteve os jogadores com a concentração no topo (exigência interna) e revelou-se crucial na campanha europeia (desafio externo) com a conquista da Champions League desse ano. Jorge Jesus parece vir a aplicar a mesma fórmula, apenas com a curiosidade de ser o 4x3x3 a ganhar preponderância face ao 4x1x3x2. No meu entender, o treinador campeão faz bem.

Perguntam vocês: porquê modificar o esquema táctico de uma equipa que foi tão brilhante em termos de golos, vitórias e exibições? Por várias razões. Em primeiro lugar, porque os jogadores e demais estrutura técnica são, praticamente, os mesmos. Em segundo lugar, porque noções ligadas ao modelo de jogo e à filosofia de clube - por(mai)ores no topo da pirâmide futebolística - são dados perfeitamente aceites e adquiridos por todos. Neste sentido, a táctica é, apenas, uma referência posicional: o 'esqueleto' da equipa. Depois, os jogadores precisam de ser constantemente espevitados com novos desafios e objectivos. Assim, a introdução de princípios de jogo ligeiramente distintos (movimentações, zonas de pressão, entre outros) tem o condão de manter o grupo 'desperto' para níveis elevados de exigência. Por fim, e não menos importante, a maioria dos adversários já estão familiarizados com os circuitos ofensivos prefenciais e, como tal, necessitam de ser constantemente surpreendidos e postos à prova.

Em traços gerais, o 4x3x3 'mascarado' apresenta algumas nuances estratégicas possíveis de confundir as referências de marcação contrárias. Para começar, defensiva e ofensivamente, existem dois jogadores mais fixos, autênticas 'âncoras' do colectivo: Airton e Cardozo, respectivamente. De seguida, enquanto Aimar e Carlos Martins têm responsabilidades acrescidas na fase de organização e/ou construção, desenhando um meio-campo «1x2», os avançados argentinos pisam terrenos mais próximos da zona de decisão, completando o tridente avançado em «2x1» com grande raio de acção.

Vamos a um exemplo: quando a transição tem início nos pés de David Luiz, é Fábio Contrão que se solta no corredor esquerdo, procurando, numa primeira instância, dar largura ao colectivo e, num segundo momento, oferecer profundidade ao «jogo» ofensivo previamente delineado. Quando a equipa vai 'queimando' linhas, ora lateralizando com Aimar, ora aproveitando as movimentações de Saviola, existem duas opções: o próprio lateral português arrisca o duelo individual 1v1 ou é privilegiado o toque curto em progressão. Por essa altura, quando o bloco defensivo encarnado está subido e a maioria dos jogadores espreita um canal de penetração, é Saviola que transmite imprevisibilidade ao sistema optando pela fuga em direcção ao flanco (largura) ou pela diagonal de fora para dentro (interiorização), permitindo o overlap de Fábio Coentrão. Do lado contrário, Carlos Martins efectua o movimento de aproximação central e, não muito distante do 2.º poste, Jara avizinha-se de Cardozo para maior presença física na grande área contrária. Do mesmo modo, o efeito é em todo semelhante se o início de transição surgir do lado direito.

Neste manancial de deambulações, o 4x3x3 encontra-se 'disfarçado' pelas movimentações dos jogadores, ao mostrar um 4x3x2x1 à imagem do AC Milan de Ancelotti ou ao exibir um 4x4x2 losango (ou o habitual 4x1x3x2) quando, à vez, Jara ou Saviola recuam para uma tabela ou conduzem a bola em progressão. Em suma, a nota artística associada à nuance estratégica do plano B de Jorge Jesus prende-se com a liberdade criativa permitida aos jogadores mais talentosos e à quantidade infindável de triangulações susceptíveis de dotar o futebol encarnado de um requinte técnico de enorme imprevisibilidade.

8 comentários:

FoRNeiRo disse...

Excelente análise e muito bem descrita.

Daria um excelente capítulo num "JJ for Dummies" ;)

Pedro disse...

Isto foi delicioso de ler!!!!

João Bizarro disse...

Mais uma excelente análise de Master Catenaccio.

José Leal disse...

a conversa que neste verão se ouviu relativamente ao substituto (gaitan) do di maria foi um bocado identica á da época passada do substituto (ramires) do katsouranis.

em vez de olhar para o passado, seja ele o historico posicional do atleta ou da equipa, deveremos olhar para as caracteristicas do atleta e ver que soluções nos oferece, e que novas 'descobertas' nos permite.

tudo isto para dizer, que apesar de não ter contratado o tal extremo esquerdo tarimbado para atacar a champions, as coisas no benfica funcionam por via da potencialização das caracteristicas dos seus atletas.

sei que é abusado, mas gostava que um dia pudesses escrever algo, mesmo curtinho, sobre a importância no jogo e sistema do Benfica de Aimar e Martins já jogarem juntos pelo 3ºano consecutivo. até que ponto o entendimento entre estes 2 é relevante.

Catenaccio disse...

Forneiro,

Era capaz de dar um livro interessante :)

Pedro,

Ainda bem que gostaste do texto :)

Bizarro,

Master? Gandalf? :)

José Leal,

A relação futebolística entre Aimar e Carlos Martins tem sido mais visível durante esta pré-época devido à implementação do sistema em 4x3x3, onde ambos dividem as despesas do jogo ofensivo.

Efectivamente, tenho notado que esta dupla, em conjunto com Saviola, consegue fazer evoluir uma espécie de "tiki-taka" muito interessante: passes curtos, apoiados, desmarcações velozes e posse de bola em progressão. Até chegamos a pensar que o Carlos Martins é, também, argentino, verdade?

No entanto, sabendo que ambos não têm elevada resistência e disponibilidade física, ainda para mais para 3 jogos numa semana, acredito que Jorge Jesus promova alguma rotação entre os 2 centrocampistas.

A partir de sexta-feira, sigo para umas merecidas férias, mas o assunto não fica esquecido. Aliás, até agradeço que sugiram temas para novas crónicas. Abraço.

T Nogueira disse...

Grande artigo ;)

http://footinmyheart.blogspot.com/

o que acha de uma troca de links?

um grande abraço

MF disse...

Catenaccio, onde 'sacas'/fazes esses desenhos tácticos?

Abraço

Catenaccio disse...

MF,

http://this11.com/

Abraço