segunda-feira, 21 de julho de 2008

Quique Flores: defesa em linha e variantes do 4x4x2

Há dias, ao escrever um artigo sobre a experiência de Quique Flores em Valência, procurei extrapolar as principais ideias de jogo para a realidade do Benfica, versão 2008/09. Foi uma primeira abordagem, devidamente suportada pela análise à disposição táctica da equipa do Valência, tendo por base algumas partidas da liga espanhola, no intuito de oferecer cenários hipotéticos sobre o modelo de jogo encarnado. Sendo do conhecimento público que Quique Flores privilegia os aspectos tácticos, faz todo o sentido voltar a debater princípios ou conceitos ligados ao sistema de jogo.

Defesa em linha

Pelas indicações dadas nos treinos, o treinador espanhol mostra ser adepto da defesa em linha. Numa apreciação meramente teórica, pode parecer uma opção de risco. Contudo, quando bem assimilada pelo quarteto defensivo, pode revelar-se uma estratégia eficaz, nomeadamente quando perante uma linha subida no terreno. Imagine-se, a título exemplificativo, uma defesa constituída por: Nélson, Luisão, David Luiz e Léo.

Para que a defesa em linha funcione eficazmente, são necessários diversos predicados: (i) concentração máxima de todos os intervenientes para respeitar o "timing" em que o avançado é colocado em fora-de-jogo; (ii) posicionamento criterioso dos espaços vitais; (iii) mecanização do tempo de pressão em função da bola e do adversário; e (iv) velocidade de todos os elementos, de forma a reagir a passes colocados nas costas (representado pelas setas a indicar o movimento de recuo).
No meu entender, Quique Flores terá de observar os prós & contras desta opção, pois é reconhecido que jogadores como Luisão e Edcarlos não primam pela velocidade de reacção e sentem-se mais confortáveis num bloco-médio baixo. Por falar em bloco, a principal vantagem da defesa em linha prende-se com uma maior interligação dos diversos sectores, possibilitando uma natural redução de espaços à circulação de bola contrária e potenciando as virtudes associadas à pressão alta.

Variantes do 4x4x2

Ao considerarmos variantes de desenhos tradicionais (4x5x1, 4x4x2, 4x3x3, entre outros), há que respeitar questões de nomenclatura, ou seja, um 3x5x2 representa a existência de 3 defesas, 5 médios e 2 avançados. Todavia, quando consideramos, por exemplo, o 4x1x2x1x2, estamos a desagregar o 4x4x2 losango e a reconhecer espaços do meio-campo caracterizados por funções distintas. A saber: zona de recuperação (pivot defensivo), zona de transição (médios interiores) e zona de construção (organizador ofensivo).
Pelo observado na partida frente ao Estoril, Quique Flores mostra-se partidário do 4x4x2 dito clássico. Ainda pode ser prematuro aceitar este esquema como prioritário, pois faltam chegar 2 reforços e, actualmente, o treinador espanhol trabalha com 37 atletas. De qualquer modo, o próprio já afirmou que vai implementar mais do que um sistema, o que deixa antever variantes à táctica inicial.

O 4x4x1x1

A diferença do 4x4x1x1 em relação ao sistema clássico reside no recuo de um avançado, de características móveis, que parte desde a zona de construção, típica de um n.º 10, com liberdade para cair nas faixas. No Benfica, esse espaço entre linhas parece talhado para a visão de jogo e explosão de Pablo Aimar. Assim, ao invés de 2 avançados de perfil, o 4x4x1x1 baseia-se na colocação de um ponta-de-lança, muitas vezes denominado de "target man", entre os centrais contrários, enquanto o companheiro de sector assume o papel híbrido de um n.º 9.5, funcionando como elo de ligação com a linha de meio-campo. Neste momento, importa conhecer a definição do plantel, pois só Javier Balboa e Di María (nos Jogos Olímpico) parece-me curto para a função de vaivém constante exigida aos médios-ala. É certo que Jorge Ribeiro e/ou Sepsi podem desempenhar o lugar canhoto, mas já Freddy Adu e Nuno Assis apresentam atributos favoráveis a um lugar mais centralizado.

O 4x2x3x1

Quando se vislumbra um 4x2x3x1, todos diríamos que estamos perante uma variante do 4x3x3, com a particularidade do triângulo central ilustrar a existência de um duplo pivot defensivo. Curiosamente, se o 4x4x2 pode dividir-se no 4x4x1x1, também este último esquema pode desagregar-se no 4x2x3x1, desde que os médios-ala transmitam maior profundidade no último terço de terreno. Não há dúvida do seguinte: a inércia ou rigidez de posições no papel pode ganhar diferentes contornos, moldando-se à dinâmica individual e colectiva. Por conseguinte, neste exemplo que a imagem ilustra, a tarefa de desequilíbrio não cai tanto sob os ombros do pivot ofensivo, mas antes encontra-se direccionada para jogadas de 1x1 nos corredores laterais. Em relação ao 4x4x1x1, nesta situação pedir-se-ia a Pablo Aimar que fosse mais um n.º 10 do que um avançado solto.

Resumo

Pela análise das duas imagens (compostas por setas que ilustram movimentos de transição) pode-se entender o alcance da mensagem de Quique Flores. De facto, treinar o 4x4x2 clássico não significa que mediante as circunstâncias do próprio jogo, do adversário e do local onde se encontra a bola (zonas de pressão), a face táctica da equipa não possa tranfigurar-se para um 4x4x1x1 ou para um 4x2x3x1. Espero ter contribuído para relembrar alguns pormenores e promover a discussão destes aspectos vocacionados para uma vertente mais táctica. Agora, tudo depende da matéria-prima disponível.

10 comentários:

dezazucr disse...

Eu julgo que o 4-3-3 também não será de desprezar, tendo 3 avançados mais móveis (apesar do Cardozo até agora não se ter mostrado muito móvel) que possam trocar constantemente de funções.

Catenaccio disse...

Olá dezazucr,

Dá-me um exemplo de um onze titular nesse esquema?

Por exemplo...Quim, Nélson, Luisão. D. Luiz e Léo, Petit, C. Martins e P. Aimar, Balboa, Di María (Freddy Adu) e Cardozo? Estás a considerar incluir "El Mago" entre os três de meio-campo?

Constantino disse...

Olhando para o plantel actual vemos que não houve evolução no que respeita à presença de extremos no plantel (apesar de ter ficado agradado com o pouco que vi do Balboa) e não sei até que ponto o Di Maria já terá consistencia para se assumir como titular. Desta forma o sistema que se adapta melhor ao plantel seria o losangulo, que eu tanto detesto possivelmente com o Petit no vertice recuado, o Aimar no vertice avançado e o Martins e Katsouranis (caso fique) a descair para as alas. Em meu entender é um sistema que privilegia a posse de bola a meio campo mas revela-se completamente inocuo nas alas (defensiva e ofensivamente), o que o torna fragil a contra ataques adversarios (a principal forma de jogo dos adversarios do SLB). O melhor exemplo disto é as vitorias alcançadas pelo scp em jogos com o SLB e com o fcp a contrastarem com derrotas inacreditaveis com equipas mais fracas (para não falar da experiencia desastrosa do f. santos onde se perderam a conta a jogos com 3 golos sofridos.
A meu ver o futebol já não tem muito por onde inventar e o 4x42 classico é e sera sempre o sistema mais completo, desde que bem interpretado pelos jogadores, pois obtem uma ocupação completa de todos os posicionamentos em campo e já que mais não seja a última epoca em que o SLB jogou futebol a serio foi nesse sistema: Moreira, Miguel, Luisao, Rocha, Fyssas, Geovanni, Petit, Tiago, SImão, Gomes e Sokota. Mais simples é impossivel

Paulo Santos disse...

"...jogadores como Luisão e Edcarlos não primam pela velocidade de reacção e sentem-se mais confortáveis num bloco-médio baixo."


Pois, esta parte é que me deixa apreensivo relativamente à defesa subida e em linha...

Mas, aguardemos...

Paulo Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Santos disse...

Já agora, Constantino, quando falas no desastre do losango do F. Santos, penso que não estás a ver bem a coisa. No estádio da Luz, onde os adversários jogam mais em contra-ataque, nessa época o Benfica empatou 4 jogos (scp, fcp, braga e com o boavista num jogo surrealista), de resto foi tudo vitórias, já o 4-4-2 clássico a que te referes valeu muitas derrotas em casa e fora...mas pronto, foi aquele jogo do Jamor que ficou na retina, não é?

Os desaires das primeiras jornadas resultaram das indefinições do plantel, da implementação do sistema, que é dos mais exigentes etc...

Nuno disse...

"A meu ver o futebol já não tem muito por onde inventar e o 4x42 classico é e sera sempre o sistema mais completo, desde que bem interpretado pelos jogadores, pois obtem uma ocupação completa de todos os posicionamentos em campo."

Isto parece conversa dos inícios dos anos 90. O Mourinho mostrou que no futebol ainda está tudo por inventar. Quanto ao 442 clássico ser aquele que promove uma melhor ocupação dos espaços, discordo completamente. Para a equipa estar compacta em 442 clássico, tem de jogar sempre com um bloco baixo, como o faz, por exemplo, o Liverpool. O problema de jogar assim, contudo, são as transições para o ataque, que têm de ser rápidas e a explorar a qualidade individual dos jogadores. O 442 losango só dá espaço nas alas se a basculação lateral da equipa não funcionar. Se funcionar, não dá. E é um esquema que permite à equipa pressionar muito mais à frente, pois é composto de mais linhas. Acho que numa equipa grande, que tem de assumir a iniciativa, tudo o que for menos que um pressing médio-alto é errado. Logo, creio, o 442 clássico numa equipa de top é um erro. A menos que os valores individuais sejam do outro mundo, como os do Manchester, por exemplo.

Palhacito disse...

Eu pessoalmente considero o 4-4-2 clássico desajustado ao plantel do Benfica: não me parece que tenhamos quantidade suficiente de extremos. E depois temos um problema táctico: ou jogamos com 2 médios-centro defensivos e perdemos capacidade ofensiva e principalmente de organização, ou se jogarmos com um (ou dois) mais ofensivo, necessitamos de médios-ala/extremos que ajudem os laterais nas compensações defensivas... e não me parece que o Di Maria e o Balboa ajudem assim tanto os laterais.
Outro problema que eu vejo tem a ver com o facto de neste sistema o controlo do meio campo ser defendido apenas por 2 médios (embora apoiados(?) pelos alas) contra os 3 ou 4 médios que muitas equipas utilizam ao jogar em esquemas como o 4-3-3 ou o 4-4-2 losango - parece-me portanto que se os alas não souberem também fechar por dentro, vai ser difícil assegurar o controlo do meio campo.

Considero também o 4-4-2 clássico um pouco retrógrado pois, por força de muitas vezes potenciar uma rigidez táctica dos seus elementos, não permite tão facilmente as movimentações e trocas de posição tão típicas do futebol actual: aquele que tanto gostam de chamar "futebol total" e que bons frutos tem dado nalgumas equipas.

dezazucr disse...

Quim
Nelson-Katsouranis-Luisao-Léo
Balboa-Petit-R.Amorim(Yebda)
Aimar
Cardozo-DiMaria

Este é o mais visível, com Balboa e Amorim mais adiantados e mais abertos que Petit (mais defensivo), mais consistência com Katsouranis no centro da defesa e maior mobilidade com o trio atacante, uma dupla servida por aimar, tendo sempre em conta a mobilidade.

Catenaccio disse...

Caros companheiros de blogosfera,

Pelo treino de ontem, Quique continua a privilegiar o 4x4x2. Na primeira parte do apronto, Katsouranis jogou ao lado de Luisão (como central) e as alas estiveram entregues a Balboa, à direita e Pablo Aimar, à esquerda. Na frente, Nuno Gomes e Makukula. De seguida, Pablo Aimar avançou para o lugar de avançado (solto, móvel), ao lado de Cardozo, também num sistema de 4x4x2.

Face às indisponibilidades físicas de alguns jogadores (Quim, Nélson, David Luiz) e o facto de Di María encontrar-se com a selecção argentina nos Jogos Olímpicos, arrisco o primeiro onze titular para a 1.ª jornada da Liga Sagres, frente ao Rio Ave:

GR - Moreira
DD - Maxi Pereira
DC - Luisão
DC - Katsouranis (se não sair, entretanto)
DE - Léo
MD - Javier Balboa
MC - Petit
MC - Carlos Martins
ME - Pablo Aimar (descaído para a esquerda, com liberdade para diagonais interiores)
AV - Nuno Gomes
AV - Cardozo

2.ª hipótese (em 4x2x3x1):

GR - Moreira
DD - Maxi Pereira
DC - Luisão
DC - Katsouranis
DE - Léo
MC - Petit
MC - Hassan Yebda
MOD (médio ofensivo direito) - Javier Balboa
MOC - Carlos Martins
MOE - Pablo Aimar
PL (Ponta-de-Lança) - Cardozo

3.º cenário (em 4x4x1x1):

GR - Moreira
DD - Maxi Pereira
DC - Luisão
DC - Katsouranis (se não sair, entretanto)
DE - Léo
MD - Javier Balboa
MC - Petit
MC - Carlos Martins
ME - Jorge Ribeiro/Sepsi
AV (solto, móvel)- Pablo Aimar
PL - Cardozo