sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A missão de Carlos Queirós

Facto: Portugal não foi além do nulo, esta quarta-feira, na recepção à Albânia. A equipa das quinas jogou quase cinquenta minutos em superioridade numérica, mas mesmo assim não conseguiu garantir os três pontos. Com este resultado, a selecção nacional continua em quarto lugar, com os mesmos cinco pontos que Suécia e Albânia, e atrás de Dinamarca e Hungria, que partilham a liderança com sete pontos.

Como de costume, a imprensa portuguesa aprecia a polémica de uma análise comparativa, não renegando esforços no sentido de desenterrar o "fantasma" de Scolari, de forma a que Carlos Queirós (ou será Queiroz?) fique catalogado com o rótulo de incompetente. Não sou advogado de defesa do professor, mas as páginas dos diários desportivos prestaram um péssimo serviço ao jornalismo. Em primeiro lugar, mesmo compreendendo alguns argumentos por trás das críticas, contesto o ataque cerrado à figura do seleccionador nacional. Em segundo lugar, lamento a forma como a imprensa escrita gere os conteúdos, abusando de uma linguagem depreciativa e ofensiva.

Recordo, com saudade, os tempos do jornal «A Bola», na sua versão XXL. Dos restantes, a minha opinião não é a melhor. Talvez porque a redacção, ou os orgãos responsáveis, lideram um diário desportivo como se fosse uma revista cor-de-rosa. Na blogosfera, até aceito que os textos sejam inoportunos e mais corrosivos. Ao contrário, daqueles que têm carteira profissional espero imparcialidade, isenção e objectividade. Cada vez mais, prefiro ler certos autores de blogues do que muitos artigos escritos na imprensa. A verdade é que a comunicação social tem o enorme poder de influenciar a opinião pública e muitos blogues encarnados foram atrás da "onda", suspirando de alívio pelo facto de Carlos Queirós não ser o actual treinador do Benfica. Caros amigos, depois de Fernando Santos é difícil encontrar pior. Portanto, a imprensa desportiva que continue com os ódiozinhos de estimação, mas eu tenho o discernimento necessário para escolher as minhas próprias "fogueiras".

Como máximo responsável da equipa das quinas, Carlos Queirós terá a sua quota-parte de culpa no fraco pecúlio acumulado. Todavia, creio que a razão principal para o pessimismo em que o país voltou a cair está longe de ter uma explicação meramente táctica. Ou de escolha técnica. Ou, ainda, relacionado com o timing das substituições. A vertente, onde o seleccionado nacional terá com que se preocupar, encontra-se intimamente ligada ao profissionalismo dos seus jogadores. Será essa a sua principal missão.

Se não é fácil educar uma criança, imaginem o esforço que terá de ser feito para educar homens com mais de vinte anos. Onde quero chegar? À questão da liderança. O principal problema reside na falta de comprometimento colectivo, da parte de vários jogadores, manifestando-se numa atitude competitiva aquém das naturais expectativas da nação do futebol. Assim, Carlos Queirós terá de instruir Cristiano Ronaldo para não aborrecer-se com o público, terá de ensinar a Nani quando deve soltar a bola, terá de amestrar Ricardo Quaresma sobre as desvantagens de querer driblar toda a equipa adversária e, de uma vez por todas, explicar que o relvado não é uma passerelle.

Depois de, no passado, Carlos Queirós ter promovido uma revolução de mentalidades, o momento actual apresenta um desafio não menos complicado: descobrir a fórmula em que o todo (equipa), seja mais forte do que a soma das partes (individualidades). Trata-se de uma tarefa que exige o seu tempo de observação e experimentação, logo teremos de dar o benefício da dúvida e esperar que a missão do professor se concretize.

Moral da história: se a geração de ouro soube perder o receio de defrontar adversários de categoria mundial, chegou a altura da nova fornada conseguir ultrapassar os seus próprios defeitos.

5 comentários:

Paulo Santos disse...

Ricardo,


Na realidade torna-se cada vez mais insuportável o maniqueísmo do pró Scolari versus pró Queiroz, implícito nesta questão.

A imprensa é uma das óbvias culpadas neste absurdo. Contudo, recordo-te que Scolari foi, nos últimos tempos, muito mais "castigado" do que Queiroz está a ser neste momento. Por isso essa coisa dos "fantasmas" é pura ficção e quando muito servirá como mais uma desculpa para esconder a incompetência do actual seleccionador. Se há coisa que Queiroz sempre teve e continuará a ter é "boa imprensa". Claro que também há quem não o grame e agora se ponha em bicos de pés...também me parece óbvio que depois da campanha anti-Scolari, motivada por resultados ou exibições, bem menos penosas que estas a que estamos a assistir, a imprensa (mesmo aquela que entoou loas a Queiroz), agora por uma questão de coerência teria que lançar alguns pauzinhos para a fogueira. Quando falo em imprensa, é em sentido generalista, abarcando duas coisas que é preciso distinguir: imprensa propriamente dita e comentário...

Em termos de comentário, Queiroz continua a ter uma enorme legião de defensores, embora alguns, neste momento tenham produzido prosas algo envergonhadas ou até dúbias...

Quanto à questão que apontas como central, e passo a citar: "... o momento actual apresenta um desafio não menos complicado: descobrir a fórmula em que o todo (equipa), seja mais forte do que a soma das partes (individualidades).", não concordo nada. Essa fórmula estava mais que encontrada e consolidada, Queiroz, por necessidade de afirmação, fez questão de deitar essa fórmula pelo cano, e anunciou, com pompa e discursos bacocos, que iria fazer tudo de forma diferente...pois é, os resultados estão à vista, já ninguém duvida que a forma está a ser diferente, muito diferente, sobretudo em termos dos efeitos que está a ter...


Penso que Queiroz é capaz de ser um profissional empenhado e cheio de brio - penso que ninguém poderá contestar isto com fundamentos - no entanto, como treinador principal de uma grande equipa, ele para mim, já está apresentado há muitos anos...não vou repetir o que penso, pois já o fiz inúmeras vezes no meu blog. Apenas, em síntese, dizer que ele é um dos maiores mitos do futebol português...


Outra coisa que me indigna, é o facto de não aplicares a moral que defendes (e bem) à tua embirração com Fernando Santos...caso não te tenhas apercebido estás a fazer algo muito parecido com aquilo que criticas...

Não leves a mal este último comentário, mas sinto-me na obrigação de, com todo o respeito, te fazer este reparo...´faço-o pela enorme consideração que tenho pelas tuas opiniões.


Abraço

Catenaccio disse...

Paulo,

Agradeço o comentário, que li com a maior atenção.

Comecemos por Carlos Queirós.

Longe de mim acreditar que estamos perante um treinador de topo mundial. E, quando me refiro aos melhores, estou a pensar numa lista de 10 ou 15 treinadores.

Agora, também me parece despropositado vir tecer as considerações habituais, como se os argumentos fossem uma roda que gira e não sai do mesmo sítio. E, quais são? A velha conversa da substituição de Paulo Torres por Capucho, na derrota dos 3-6 e a performance no Real de Madrid. Quanto à primeira, um treinador não pode ficar eternamente marcado por um erro táctico, quando o resultado até podia ter tido mesmo desfecho. Relativamente ao segundo argumento, mas quais os treinadores que conseguem ter a estabilidade necessária para treinarem o Real de Madrid? Com dirigentes daqueles, o argumento perde logo toda a força.

Como foi possível ler no meu artigo, não retiro a Carlos Queirós a sua quota-parte de responsabilidade. Porém, ela centra-se num aspecto mais voltado para a área de liderança, porque há por ali muitos jogadores que não deviam vestir a camisola da selecção e que utilizam a camisola das quinas como promoção pessoal.

Segundo assunto: crítica a Fernando Santos.

Já esperava que alguém viesse tocar nesse ponto. Acontece que entre a comunicação social ligada ao fenómeno, a imprensa desportiva escrita («A Bola», «O Record» e «O Jogo») e o autor deste blogue, há uma diferença assinalável: eu não recebo um salário por escrever no Catenaccio. Por outras palavras, eu não tenho carteira profissional, não tenho de seguir um código de ética e deontologia, não tenho de ser isento, imparcial e objectivo. Se tiver vontade, até posso escrever que o Luís Filipe é o melhor lateral direito português.

Podes-me questionar: então mas não achas que devias dar o exemplo e procurar distanciar-te desse tipo de comunicação? Sim, claro.

N fundo, é o que faço. Sabes porquê?
Porque critiquei Fernando Santos mal soube que iria ser o novo treinador do Benfica.
Porque fui coerente desde a primeira hora, quando muitos ainda acreditavam que a primeira época do 'Engenheiro' ia ser sinónimo de sucesso.
Porque utilizei argumentos válidos para explanar o meu ponto de vista, sem estar à espera de mais uma derrota.
Porque quando o Benfica empatou na 1.ª jornada com o Leixões, e a imprensa e os adeptos já "cheiravam" o sangue do homem, escrevi que foi mais vítima do que culpando, em face da saída extemporânea de Manuel Fernandes e Simão.

Quero, ainda, deixar bem claro o seguinte: como já expliquei, não tenho o dever, nem a obrigação de ser isento, imparcial e objectivo. Não tenho a pretensão de educar os leitores, nem de alertar consciências.

Mas, uma das coisas com que mais me preocupo é em não tornar este espaço num blogue meramente "encarnado". É verdade que muitos conhecem a minha cor clubística e sabem que sou sócio do Benfica. Mas, no Catenaccio escreve-se sobre outros temas e procura-se debater outros assuntos. Respira-se futebol. Ou, pelo menos, é esse o meu intuito.

Só para terminar, tomara muita gente seguir as suas próprias convicções e ideias sobre o universo benfiquista, porque muitas vezes fui crítico do meu próprio clube e tentei, na maioria das vezes, ser imparcial e analisar os acontecimentos com a máxima racionalidade.

Abraço grande

Carlos Saraiva disse...

Concordo e assino por baixo, mas...
"Carlos Queirós terá de instruir Cristiano Ronaldo para não aborrecer-se com o público, terá de ensinar a Nani quando deve soltar a bola, terá de amestrar Ricardo Quaresma sobre as desvantagens de querer driblar toda a equipa adversária e, de uma vez por todas, explicar que o relvado não é uma passerelle."
Estas não deviam ser as principais preocupações do seleccionador nacional. Devia preocupar-se mais em estudar os adversários e convocar os melhores para representar Portugal. O problema é que os melhores são estas crianças mimadas, que Carlos Queiroz terá que educar, fazendo quase o papel de pai, deixando de lado o de seleccionador/treinador.
Mas é a selecção que temos e disso, Queiroz não tem culpa nenhuma, mas é com ela que terá que chegar à Àfrica do Sul.

http://chutodeletra.blogspot.com/

Ricardo disse...

Concordo com quase tudo, distanciando-me apenas na referência a Fernando Santos, que me pareceu um treinador que fez um bom trabalho no Benfica e foi muito pouco auxiliado quando devia, para além da forma ignóbil e suja como foi despachado. No resto, como disse, assino por baixo.

Aproveito, Ricardo, para te convidar a passares por um blogue que abri com mais dois amigos:

www.ontemvi-tenoestadiodaluz.blogspot.com

Abraço!

torbinsky disse...

foi a imprensa que fez tudo para que fosse o queiroz o seleccionador, e vai ser a imprensa que o vai tirar de la.mas desta vez com a razao que nao tiveram quando o empurraram para o cargo.o problema dele é que quem com ferros mata...

abraço