sexta-feira, 29 de maio de 2009

Movimento 'Benfica, Vencer, Vencer'

O movimento "Benfica, Vencer, Vencer", cujo principal rosto é o médico João Varandas Fernandes, conta com o apoio de diversas figuras ligadas à vida do clube. João Carvalho e Fernando Tavares, ambos antigos vice-presidentes do clube, assim como José Veiga, também estão ao lado deste grupo, que tem mantido diversas reuniões nos últimos meses.

O último desses encontros aconteceu na última segunda-feira e contou com a presença de cerca de 60 benfiquistas. O movimento será oficialmente apresentado às 19h00 do dia 15 de Junho, num hotel de Lisboa, e pretende criar uma lista alternativa à actual direcção para concorrar às eleições do clube, marcadas para o final do mês de Outubro.

Há algum tempo que tenho mantido contacto privilegiado com o dito movimento, tendo marcado presença na reunião da segunda-feira passada.

Entendo a curiosidade de todos e julgo que os benfiquistas, sócios e adeptos, devem ser convenientemente informados sobre o que diz respeito à vida do clube. Contudo, como devem compreender, existem 'timings' a respeitar. Se tantas vezes criticamos as fugas de informação para a comunicação social, temos de aceitar que o anúncio público do programa e nomes envolvidos tem o seu espaço e tempo próprios.

No entanto, tentarei, na medida do possível, levantar um pouco o véu sobre algumas características do movimento.

Em primeiro lugar, não se trata de nenhuma sociedade secreta, ao estilo dos Illuminati do filme Angels & Demons, até como se comprova pela presença, se não estou enganado, de um ex-presidente de uma Casa do Benfica, convidado para ouvir e debater as linhas gerais da proposta. Tive oportunidade de trocar algumas impressões e posso afirmar que se trata de uma pessoa bem intencionada e conhecedora da realidade benfiquista. Como disse, o movimento tem um espírito democrático e aberto à participação. Levei um amigo que tinha algumas reservas, que gosta de pensar por si próprio, sendo céptico e descrente, tendo ficado muito bem impressionado com as pessoas, o discurso e a forma tranquila como se discute a actualidade encarnada.

Em segundo lugar, volto a pedir alguma paciência. Dentro de pouco tempo será criado um site para o efeito, onde todos serão bem-vindos para dar o seu contributo: debater ideias, sugerir opções de diversa ordem e participar, livremente, com o seu espaço de opinião. Nesse local virtual, ficarão a conhecer algumas das personalidades benfiquistas envolvidas no movimento, assim como os traços gerais do mesmo, nomeadamente as linhas mestras desportivas e económico-financeiras. Espera-se que, mais do que citar problemas, sejam apresentadas soluções. Concerteza, não será tempo perdido. Como foi noticiado, no dia 15 de Junho, numa unidade hoteleira de Lisboa, haverá uma conferência de imprensa, onde o acto terá uma importância pública mais mediática.

Posto isto, quero dizer o seguinte: o movimento pretende captar a atenção dos sócios e adeptos, ao mesmo tempo que quer ganhar força e sustento. Para tal, existe uma ficha de inscrição que não representa nenhum compromisso sério, nem tem carácter vinculativo, funcionado quase como uma espécie de votação numa petição online. Nesta altura, compreendo que muitos queiram aguardar por mais desenvolvimentos. Em princípio, o próprio site terá disponível essa ficha de inscrição online, para que o movimento represente a mola impulsionadora para se tornar uma alternativa válida. No entanto, antecipando-me, e para quem tenha interesse, disponibilizo um exemplar da ficha de inscrição.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A tragédia benfiquista

Começo por pedir desculpa a todos os leitores pela menor actividade aqui depositada. Porém, nos últimos tempos, não abunda a disponibilidade para escrever algo mais denso e profundo. Pelo menos, não da forma a que estou habituado, perseguindo critérios mínimos de qualidade. No entanto, não estou completamente afastado: podem sempre encontrar-me no 'twitter', através do consumo rápido (troca de comentários) proporcionado por 140 caracteres.

Posto isto, para variar, vou citar um artigo de opinião escrito por António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School. Trata-se, sem dúvida, de um dos textos mais certeiro, lúcido e rigoroso, que tenho lido sobre a realidade benfiquista actual. Sem pestanejar, subscrevo palavra por palavra. Aconselho a leitura:

A tragédia benfiquista

"Sou sócio há mais de 35 anos do Benfica e a minha mulher e as minhas duas filhas desde o dia em que nasceram.

Há, portanto, neste tema uma carga emocional familiar que dificulta o distanciamento e a objectividade. Ainda assim, enquanto professor de gestão, irei tentar olhar o meu clube como um caso que nos possa ensinar alguma coisa.

Creio que a métrica de valor da indústria do futebol é relativamente simples: as receitas directamente derivadas do espectáculo (bilheteira, televisão), as derivadas da marca ("sponsorização", 'merchandising') e da valorização dos activos (jogadores). Todas elas, em maior ou menor grau dependem da ‘performance' da equipa de futebol e em dois planos: o conjuntural (época em curso), que afecta a bilheteira e a maior ou menor valorização dos activos e o estrutural (conjunto de 'performances' ao longo dos anos) que afecta os restantes items e que no longo prazo cria as condições para o sucesso empresarial. Retenhamos o segundo plano, já que o da conjuntura dispensa adjectivos e apenas suscita dor e tristeza. Desde que a actual gestão tomou conta do clube o panorama é aterrador. Deserto de títulos e apenas pontuais sinais de se lá chegar (no campo dos resultados e não das intenções).

A gestão do clube, quando iniciou funções, tinha pela frente a mais desafiante das situações empresariais: concretizar um 'turnaround' a uma "empresa" quase falida, mas com capacidade de ter sucesso na sua indústria. E trabalhou bem: ofereceu credibilidade aos credores e demais 'stakeholders', negociou passivos, animou e desenvolveu novas canais de receitas, racionalizou custos, profissionalizou mais o negócio. Até foi capaz de construir um novo palco. Isto é, fez tudo que era possível fazer independentemente da melhoria da sua posição competitiva na indústria. Mas para que o 'turnaround' tenha sucesso, há essa segunda fase, a da 'performance' no seu negócio, ou seja, ganhar mais vezes. E aí a gestão falhou redondamente. Não houve competência para responder a esta segunda parte do desafio. E quando assim é, nas empresas acontece uma de duas coisas: a gestão dignamente reconhece e dá lugar a outra ou, menos dignamente, apenas os accionistas o reconhece e substituem-na em conformidade. Infelizmente, no Benfica não parece ir acontecer nem uma coisa nem outra. Mas temos uma consolação: está prestes a iniciar-se o campeonato em que já alcançámos o penta, o campeonato de verão: durante 3 meses vamos vencer o número de primeiras páginas, com os inúmeros treinadores e jogadores que estão para vir e que já não vêm. Pena é que essas páginas não sejam a principal fonte de valorização do negócio: se assim fosse já nem precisaríamos de entrar em campo em Agosto".

http://economico.sapo.pt/noticias/a-tragedia-benfiquista_10945.html

sábado, 9 de maio de 2009

O código genético do Sport Lisboa e Benfica

No dia 28 de Fevereiro de 1904, na Farmácia Franco, situada na Rua de Belém, foi fundado o Grupo Sport Lisboa (primeira designação), por iniciativa de jovens do bairro de Belém e de ex-alunos da Real Casa Pia de Lisboa. A reunião foi relativamente rápida e, após a formalidade, o grupo foi treinar-se. Encontraram-se 24 entusiastas: Cosme Damião e mais 23. José Rosa Rodrigues, o primeiro presidente, fez parte da equipa de futebol que realizou o primeiro jogo em 1 de Janeiro de 1905 contra o Campo de Ourique no Campo das Salésias.

Caríssimos leitores: são conhecidos os benefícios para a saúde de uma alimentação cuidada, da prática regular de desporto e de um permanente contacto com a natureza. Vida regrada, vida prolongada. Porém, o código genético acaba sempre por falar mais alto. Agora, façam rewind no texto e reparem bem no seguinte detalhe: o Benfica nasceu na Farmácia Franco. Numa farmácia?! Bem, imagino a quantidade de anfetaminas ingeridas por Cosme Damião, de modo a ficar acordado até à manhã seguinte e dar por concluída a acta da primeira reunião. Até apostaria que a celebração do acordo teria sido comemorada com a produção de um cocktail de alucinogénios. Só assim se explica que o Benfica não seja um projecto, antes uma visão. Mas, não deixa de ser estranho: que clube é fundado numa farmácia? Só se for o Bayer Leverkusen...

Acompanhem o meu racíocinio: esse acontecimento longíquo representa o 'tijolo' principal do ADN do clube, onde está contida toda a informação genética. Daí se possa afirmar que o ADN contém um código passível de ser decifrado em mensagens. No meu entender, a herança transmitida acaba por ser nítida. A formalização da ideia visionária manifestou-se numa espécie de after-hours da época o que explica o facto do Benfica ser, ao mesmo tempo e na sua essência primordial, um clube: apaixonante e odiado; anárquico, confuso e desorganizado, mas imponente e monumental; abnegado e exaltado; desvairado e tresloucado, sem deixar de ser altruísta, desprendido e popular. O Benfica é um clube cuja feição assemelha-se a uma fórmula científica: difícil de entender, gerir e sentir.

Já os principais rivais apresentam uma configuração genética diametralmente oposta. Em primeiro lugar, o vizinho Sporting. Nascido em berço de Visconde, mescla de Lord Inglês com fighting spirit, a alta nobreza do seu futebol podia ter sido criada, por exemplo, numa qualquer região britânica. O Sporting é um clube altivo, orgulhoso, pedante, pretensioso, soberbo e vaidoso. O seu ADN tem pouco de português e muito mais daquela postura fleumática. Em segundo lugar, o FC Porto. No meu ponto de vista, podia perfeitamente ser um clube basco: autónomo, batalhador, guerreiro, independente, lutador, ríspido, truculento e violento. Embora não rejeite traços portugueses do seu código genético, podia perfeitamente ser identificado com outro povo, outra nação.

O Benfica é diferente. O Benfica é tipicamente português. Porquê? Porque mais do que nenhum outro é o clube que reúne o maior número de qualidades e defeitos atribuídos ao povo português. Tal como na época dos Descobrimentos, o Benfica é produto da imaginação, sonho e visão de homens brilhantes. Contudo, não nasceu em berço de ouro e a figura que lhe deu glória teve origem humilde e modesta em terras de Moçambique. O Benfica é um clube que teve de crescer na adversidade, com especial destaque no ano de 1954, quando a construção do grandioso Estádio da Luz contou com o apoio financeiro de milhares de associados e adeptos. É um clube que faz das fraquezas, forças. Da desgraça e fatalidade uma oportunidade de apego, fraternidade e união, como ficou bem demonstrado na tragédia da morte de Féher. No fundo, o Benfica é como cada um de nós: cheio de virtudes e pleno de imperfeições.

Penso que esta é a grande lição do passado. O Benfica é como Portugal e os portugueses: caótico, como o país; desenrascado, como o povo, admirável, portentoso e sublime, como a história. O Benfica (sobre)vive nessa constante instabilidade, entre o abismo e a glória, entre a decadência e o triunfo. Actualmente, tornou-se costume enaltecer as estruturas profissionais organizadas, o planeamento e rigor económico-financeiro, os treinadores metódicos e racionais e, por fim, os jogadores geniais e talentosos. O Benfica é muito mais do que tudo isso. É uma força invisível que nos transcende ou nunca teríamos sido campeões nacionais depois daquele Verão 'quente' de 1993. Daí o sentimento tão poderoso e resistente que nos une, quando o estádio da Luz transfigura-se num castelo ou fortaleza pronto a ser defendido pela energia e vontade do espírito benfiquista. Esse é o sentimento de identificação com uma causa. Essa é a mística.

Chegou a altura dos adeptos compreenderem que de nada serve contrariar o código genético do clube: não vale a pena 'imitar' a organização do FC Porto, 'copiar' a formação da Academia de Alcochete, 'reproduzir' os métodos do treinador que reside em Milão ou 'plagiar' a concepção de jogo implementada pelo Barcelona. O Benfica só tem de voltar a descobrir o que sempre foi: o Benfica da Farmácia Franco.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O candidato Bruno Carvalho

Quando surgiu a candidatura de Bruno Carvalho, pensei que se tratava de uma simples brincadeira como forma de preencher páginas dos jornais e entreter os benfiquistas mais incautos. Pese embora a novidade tenha sido sinónimo de afronta à inteligência, a primeira impressão, de estupefacção, passou rápido como um foguete. Cada vez mais, começam a ser poucas as situações passíveis de causar admiração. Mas, afinal, quem é Bruno Carvalho? Não sei. Quer dizer, sei que é director-geral do Porto Canal, empresário, blogger no Novo Benfica e pouco mais. Jamais o identifiquei como indivíduo interessado pelo dia-a-dia do Benfica, desconheço os nomes dos seus colaboradores mais próximos e, para além da excessiva 'colagem' ao ideal instalado no FC Porto, custa-me alcançar a verdadeira dimensão das linhas gerais do projecto pensado para o clube.

Todavia, o melhor estava para vir. Hoje, foi noticiado que os Estatutos podiam bloquear a candidatura de dita personagem: Fonte do clube da Luz garante que Bruno Carvalho não preenche os requisitos para ser eleito, tendo sido, aliás, emitido parecer nesse sentido. O empresário é sócio correspondente do Benfica desde 2002 e só no ano passado é que passou a efetivo. Magnífico. Era mesmo disto que o Benfica precisava. Vejam bem a comparação: o 'pára-quedista' tem menos anos de sócio do que o meu estado civil a dizer casado. Por conseguinte, se nestes quase quatro anos ainda não aprendi a preparar uma garoupa no forno, qual será a real ligação deste artista com o Glorioso? Ultrapassada esta analogia, o homem com cara de quem levava estaladas no recreio pode, ou não, ir a votos? Observemos os Estatutos, a que o jornal 'Record' faz menção:

De acordo com o ponto 2 do artigo 12.º dos estatutos, "só os sócios efetivos com mais de cinco anos consecutivos de filiação associativa gozam do direito consignado na alínea d)" do ponto 1. Nessa alínea, pode ler-se: "Ser eleito para os órgãos sociais." O artigo 23.º, por sua vez, refere que "os cargos de órgãos sociais são desempenhados por sócios efetivos que, à data da eleição, perfaçam pelo menos cinco anos de filiação associativa ininterrupta nessa categoria". E, para os encarnados, estes pontos não remetem para qualquer outro. O empresário tem outro ponto de vista, socorrendo-se do ponto 3 do também artigo 12.º: "Ao sócio auxiliar que passe a efetivo são concedidos todos os direitos inerentes a esta categoria, desde que naquela qualidade preencha as condições previstas no número anterior."

Podem questionar porque estou a dar tanta importância à suposta candidatura de Bruno Carvalho. Por uma razão muito simples: aparentemente, o cenário ganhou contornos de maior complexidade a partir do momento em que Petit será, ao que tudo indica, o mandatário do empresário na corrida à presidência do Benfica e, provavelmente, será contratada a empresa de marketing que em 2000 ajudou Florentino Pérez a ganhar as eleições no Real Madrid. Caros leitores, esta notícia faz toda a diferença. Não porque Bruno Carvalho mereça crédito acrescido, mas porque fica provado que 'tem as costas quentes', protegido por alguém que joga nos bastidores. Aqui há tempos, na Tertúlia Benfiquista, foi escrito que António Figueiredo e Bruno Carvalho foram vistos no Hotel Marriot. Será o aparecimento dos Neo-Damasianos? Duvido...

Não pensem que este artigo, de completo desprezo por uma candidatura a roçar o rídiculo, represente a pretensão, contrária, de defender a actual Direcção do clube encarnado. A minha insanidade mental, ainda, não chegou a tanto: aproxima-se, a passos largos, o momento de 'trocar de pneus'. Agora, estou em crer que Bruno Carvalho é uma espécie de 'testa de ferro', mas desconheço quem escreve o argumento desta estória sem fim à vista. A figura que ilustra esta crónica pode representar vários papéis: o de 'burro' que puxa a carroça do dono; o de 'cavalo' que puxa o coche do senhor feudal; ou, por fim, o de 'carapau de corrida' que serpenteia entre alguns predadores, até dar entrada um 'peixe' de maiores dimensões. Sabem como é: it is always a big fish.

Para finalizar, resta-me aguardar, serena e pacientemente, pelo aparecimento de uma candidatura personalizada, baseada em predicados de competência, determinação e organização, com um programa e uma equipa de colaboradores susceptíveis de transmitir, à nação benfiquista, um sentimento de esperança numa mudança sustentada. Não acredito que Bruno Carvalho seja a figura capaz de operar essa renovação. Seria preciso muito mais do que uma empresa de marketing, a começar, talvez, por uma empresa de imagem. É que, muito sinceramente, não o queria nem para administrador de condomínio do prédio onde vivo...