quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Como deve o Benfica jogar em Alvalade?

No dia 1 de Dezembro de 1907, no Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, o Sport Lisboa e o Sporting defrontaram-se para o Campeonato de Lisboa. Ninguém poderia adivinhar que seria um dia para a memória do país. Mais de um século depois, aproxima-se o derby eterno de todas as emoções.

Sporting – Benfica: de 2000/01 a 2007/08

Aproveitemos para revisitar a história recente, a partir do século em que nos encontramos.

2000/01: Sporting 3-0 Benfica (Acosta, Pedro Barbosa, Beto)
2001/02: Sporting 1-1 Benfica (Jardel; Jankauskas)
2002/03: Sporting 0-2 Benfica (Zahovic, Tiago)
2003/04: Sporting 0-1 Benfica (Geovanni)
2004/05: Sporting 2-1 Benfica (Liedson 2; Nuno Gomes)
2005/06: Sporting 2-1 Benfica (Luís Loureiro, Liedson; Simão)
2006/07: Sporting 0-2 Benfica (Ricardo Rocha, Simão)
2007/08: Sporting 1-1 Benfica (Vukcevic, Cardozo)

Numa análise simplista, facilmente se conclui que o equilíbrio é a nota dominante - nos derbys do século XXI, dois empates a uma bola intrometem-se no conjunto de três vitórias para cada lado. Se alguém quiser arriscar um prognóstico, tentem adivinhar a sequência seguinte: V-E-D-D-V-V-D-E-?

Chave do derby

Desfeitas algumas indecisões, nas escolhas técnicas dos melhores intépretes, a chave do derby está...na imaginação individual dos jogadores mais talentosos. Um dia, Cruijff teve um expressão curiosa, ao afimar que "a Itália nunca venceria a Holanda, mas a Holanda poderia perfeitamente perder com a Itália". Neste caso, para ambos os clubes envolvidos na contenda, poderia apostar na lógica seguinte: (i) para não perder bastará seguir à risca o plano táctico traçado, acrescentando-lhe doses elevadas de motivação e concentração; (ii) para vencer será necessário libertar a imaginação dos homens capazes de desequilibrar - a fantasia de Reyes, os remates de Izmailov, os passes de Aimar, a técnica de Vukcevic, a velocidade de Suazo, a mobilidade de Liedson. O colectivo pauta o equilíbrio. O indivíduo decide o derby.

O "telefone vermelho"

Tal como feito aquando da visita ao dragão, as linhas que se seguem poderiam representar a abertura de um canal de comunicação com Quique Flores. Uma espécie de "telefone vermelho". Nada a ver com a transmissão entre a Casa Branca e o Kremlin, excepção feita ao precioso objecto que serve de inspiração a esta loucura literária.

"Alô!? Quique? Daqui Catenaccio. Estou bem, obrigado. Epá, se não te importas, podes desligar a PS3? Já agora, o som de flamenco também está um bocado alto. Desculpa lá, mas o que tenho para falar contigo é importante. O Paco está por aí? Óptimo. Ele que traga o papel cavalinho e comece por desenhar um losango. Então, escuta com atenção..."

Um olhar sobre o rugido do leão

Muito bem. Comecemos pelo intervenientes que movimentam o losango. Pega nestes nomes e coloca-os nos sítios apropriados: Tiago, Abel, Carriço, Polga, Caneira, Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic, João Moutinho, Liedson e Hélder Postiga. À primeira vista, pode parecer um daqueles puzzles do Papagaio Sem Penas, mas vais ver que até uma criança de 4 anos sabe encaixar as peças correctamente. Já está? Claro, não era difícil. Faz o seguinte: desmonta tudo e imprime a imagem que fiz questão de digitalizar. Sabes, é que o Paulo Bento gosta de inovar algumas "nuances" geométricas – o 4x4x2 losango híbrido.

Quique, em relação à atitude mental é manter a personalidade registada no dragão. Quanto a isso, estamos conversados. Agora, não te deixes enganar com o cabelinho do Paulo Bento. Cuidado, pois o treinador leonino não procura atingir a águia com o primeiro disparo; antes guarda a pólvora para o momento em que algumas penas forem caindo no relvado. Para que tu entendas: acredito que o Sporting vai deixar o Hélder Postiga no banco e Vukcevic será o companheiro de Liedson, na frente de ataque. Faz toda a diferença, sabes?

Em primeiro lugar, creio que o meio-campo será fortalecido com um elemento mais preparado para a transição defensiva. Embora o Escribá te possa dizer o contrário, o Paulo Bento sabe que vamos alinhar com uma linha de quatro jogadores no meio-campo. Quique, repara no seguinte: com Miguel Veloso, Izmailov, Vukcevic e João Moutinho, o 4x4x2 losango acaba por assemelhar-se, em posse de bola, a um 4x1x3x2. Face à qualidade técnica dos nossos jogadores ofensivos, é previsível a inclusão de Vukcevic numa zona próxima de Liedson.
Em segundo lugar, o jogador montenegrino encontra-se numa forma excelente e seria contraproducente utilizá-lo em tarefas defensivas. Por conseguinte, a colocação do ex-proscrito de Paulo Bento em terrenos mais avançados, permite que a liberdade concedida se transforme em ocasiões de golo. Desta forma, com Izmailov na meia-esquerda, mais qualificado para suportar as eventuais de Maxi Pereira, a dupla de leste pode apoveitar a lentidão de Luisão e o espaço deixado nas costas da nossa defesa.

Só mais uma dica relacionada com os cruzamentos - cautela na forma como a equipa faz a basculação em largura, porque os cruzamentos vindos da direita, perto da grande área, costumam apontar para a entrada de um elemento ao segundo poste; ao invés, no flanco contrário, há a tendência para tentar chegar à linha de fundo, através de acção individual, solicitando depois, com um passe atrasado, a chegada de um companheiro nas imediações da grande área.

Quique, claro que haveria muito mais aspectos estratégicos para debater. Se pretenderes aprofundar alguns temas, fica sabendo que estou disponível para jantar no "La Paparrucha". Obviamente, a logística e todos os gastos suplementares ficam por tua conta.

5 comentários:

Valdemar disse...

Tá giro, mas eu pura e simplesmente deixo de ler um texto sobre futebol quando metem a palavra "basculação".

Sorte a tua que a meteste no fim do texto...

Catenaccio disse...

Valdemar,

Quais as razões que motivam essa resistência ao novo léxico do futebol? Em vez de basculação, preferias a expressão "normalmente orientado para o pressing à zona, em largura, ou em profundidade, corresponde ao movimento colectivo defensivo, efectuado pela equipa sem a posse de bola, no intuito de posteriormente a recuperar"? Se as palavras existem, porque não usá-las?

Obrigado pela visita!

Ricardo disse...

Ahahahah muito bom, pá! A ver se o Quique percebe!:)

E Obrigado pela referência ao Paparrucha. Não conhecia e parece-me óptimo.

Quanto ao jogo, em linhas gerais, espero a mesma atitude que a equipa teve no Dragão. Sobre esse aspecto, não tem de mudar nada.

Quanto à forma de jogar, acho que, em Alvalade, poderemos ser mais incisivos do que fomos no Dragão. Abrirmos mais o jogo, não nos fecharmos tanto, e procurarmos os extremos para criar situações de perigo, em ataque continuado - as transições rápidas, claro, serão sempre a nossa maior arma, juntamente com as bolas paradas, mas parece-me que este Benfica e neste momento da época tem condições para se impor mais no jogo do que há uns tempos atrás.

É de aproveitar também a indefinição no centro da defesa sportinguista e, caso Rochemback jogue, explorar, com alguém rápido (Reyes ou Di Maria, preferencialmente), esse lado do campo.

Gostava que o Sporting entrasse com um losango em que Vukcevic entrasse (seria bem mais fácil de superarmos, tanto em posse organizada como em rápidas saídas para o ataque, o meio-campo sportinguista) mas acho, como tu, que o Bentinho vai atirar o Vuk para perto do Liedson.

Acredito totalmente na vitória.

Abraço!

dezazucr disse...

Mais uma vez, excelente texto, apesar da análise ao porto me parecer mais completa que esta. Julgo que o Benfica terá de usar a mesma estrategia usada frente ao porto. Contenção primeiro, encaixando e anulando o jogo do zbórtem e matando o jogo depois. Até porque tranquilizando a nossa defesa, somos fortes a atacar. Espero que ganhemos. Este jogo é bem mais importante do que fazem parecer. Este é o jogo da época, tanto matemáticamente como psicológicamente. Se perdemos ou mesmo se empatarmos, o campeonato vai-se.

Já agora, meu caro, na minha passagem pelos blogues benfiquistas, encontrei um excelente post do JNF, que sugiro a leitura. Concordei com a sugestão dele de colocarmos todos (os bloggers benfiquistas) o mesmo post nos nossos blogues, de modo a dar ênfase ao excelente texto, criando uma primeira onda pela blogosfera. Acredito que somos lidos (obviamente uns mais que outros) por muita gente, pelo que pode ter um efeito enorme se alinharmos todos.

Vamos fazer a nossa parte (eu já fiz a minha), criando a nossa Onda Benfiquista! Pode começar nos blogues e alastrar-se para os estádios e os cafés e todo o sítio onde exista um Benfiquista. Vamos unir-nos, vamos apoiar a equipa. Juntos venceremos. Está na hora de apoiar.

Jorge Diogo disse...

Só para dizer que este depenador de galinhas é letal.
Foi uma lição de bola na 2ª parte, mais uma vez te digo que o vosso mal na equipa é a defesa, ando a dizer isto desde o começo embora para ser franco é normal no vosso clube conseguirem separar o trigo do joio e apontar os defeitos quando falam com adversários de outros clubes, e mais um penalty por assinalar com o braço do maxi,
tenho-te dizer que tens que ir ao médico para veres essa vista, já que me dizes que esse lançe é bola no ombro.
Liedson manda cumprimentos a todos Galinácios.